A POESIA DO MERCOSUL

A Sociedade Partenon Literário e a Livraria Letras & Cia. apresentam o evento literário A POESIA DO MERCOSUL: SESSÃO DE LEITURA POÉTICA, idealizado e coordenado pelo poeta, editor e pesquisador porto-alegrense Paulo Bacedônio.
O evento abrangerá a poesia dos países que integram o MERCOSUL: Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile, através da leitura de poemas de poetas clássicos e contemporâneos.
O evento contará com a participação dos convidados especiais: César Pereira, Marinês Bonacina e Floreny Ribeiro.

O QUÊ: A POESIA DO MERCOSUL: SESSÃO DE LEITURA POÉTICA
QUANDO: Terça-Feira, 24 de Novembro de 2009, às 14 horas
ONDE: Letras & Cia. Livraria-Café
Av. Osvaldo Aranha, 444
Porto Alegre – Rio Grande do Sul – Brasil

ENTRADA FRANCA

Apoios Culturais: Sociedade Partenon Literário, Instituto Cultural Português, Revista Literária Paralelo 30 e Casa do Poeta Latino-Americano

Anúncios

VENCIDOS

Nós ficaremos, como os menestréis da rua,
Uns infames reais, mendigos por incúria,
Agoureiros da Treva, adivinhos da Lua,
Desferindo ao luar cantigas de penúria?

Nossa cantiga irá conduzir-nos à tua
Maldição, ó Roland?… E, mortos pela injúria,
Mortos, bem mortos, e, mudos, a fronte nua,
Dormiremos ouvindo uma estranha lamúria?

Seja. Os grandes um dia hão de cair de bruço…
Hão de os grandes rolar dos palácios infectos!
E glória à fome dos vermes concupiscentes!

Embora, nós também, nós, num rouco soluço,
Corda a corda, o violão dos nervos inquietos
Partamos! Inquietando as estrelas dormentes!

Emiliano Perneta (1866-1921)
Nasceu em um sítio nas proximidades de Curitiba (Pinhais), no Estado do Paraná. Poeta simbolista, advogado, jornalista, auditor de Guerra e professor. Fez os primeiros estudos na terra natal, até que em 1883 foi para São Paulo, onde se matriculou na Faculdade de Direito. Participou da boêmia estudantina e foi um dos maiores animadores da imprensa acadêmica. Foi um grande agitador da vida literária paranaense, reunindo no Centro de Letras do Paraná, de que é o fundador, todos os intelectuais da cidade. Em 1911 recebeu uma grande consagração, ao ser eleito o Príncipe dos Poetas do Paraná. Obras: Músicas (1888); Carta à Condessa d’Eu (1889); Ilusão (1911); Pena de Talião (1914); Setembro (1934); Poesias completas (1945).

VASO GREGO

Esta de áureos relevos, trabalhada
De divas mãos, brilhante copa, um dia,
Já de aos deuses servir como cansada
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.

Era o poeta de Teos que a suspendia
Então, e ora repleta ora esvasada,
A taça amiga aos dedos seus tinia,
Toda de roxas pétalas colmada.

Depois… Mas o lavor da taça admira,
Toca-a, e do ouvido aproximando-a, às bordas
Finas hás-de lhe ouvir, canora e doce,

Ignota voz, qual se da antiga lira
Fosse a encantada música das cordas,
Qual se essa voz de Anacreonte fosse.

Alberto de Oliveira (1859-1937)
Nasceu em Palmital de Saquarema, no Estado do Rio de Janeiro. Cursou Medicina, mas formou-se em Farmácia, em 1883. Foi funcionário público e professor de Língua e Literatura. É considerado o mais parnasiano dos poetas brasileiros. Notáveis são os poemas em que descreve objetos decorativos e aqueles em que revela a natureza brasileira. Um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, foi eleito Príncipe dos Poetas do Brasil em 1924. Doutor em Filosofia e Letras, Honoris Causa, pela Universidade Nacional de Buenos Aires (Argentina), sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa (Portugal), membro da The Hispanic Society of America (Estados Unidos). Publicou, entre outros, os seguintes livros: Canções românticas (1878); Meridionais (1884); Sonetos e poemas (1886); Poesias completas (1900).

ESFINGE

Tuas pupilas alaga
Não sei que acerba ternura,
Cuja luz cruel me afaga,
Cujo afago me tortura.

Unge-te o seio moreno
Um perfume sufocante,
Suave como um calmante,
Pérfido como um veneno.

Freme-te a alma fatal
No frágil corpo nervoso,
Como um filtro perigoso
Numa prisão de cristal.

Para estancar os desejos,
Que teu sangue tantalizam,
Teus lábios prodigalizam
Dentadas por entre beijos.

Com sarcasmos me apunhalas;
Depois, as feridas cruas
Ameigas com a luz que exalas
Dos teus olhos – negras luas.

Tua palavra me é dura,
Às vezes, pelo sentido,
E doce pela brandura
Com que me trina no ouvido.

Há uma alma que suspira
Em cada ponto de espaço
Quando caminhas: teu passo
Murmura como uma lira.

No movimento discreto
Revelas, por entre as gazes,
Todo um poema correto
Escrito em verso sem frases.

Os teus lençóis apaixonas
Com a gentileza, que apuras
Nas langorosas posturas
Em que o teu corpo abandonas.

Dos primores, de que és feita,
A nenhum dou primazia:
É do conjunto a harmonia
Que os meus sentidos sujeita.

E eu te amo, beleza fátua,
Minha perpétua loucura,
Como o verme a flor mais pura,
E o musgo a mais bela estátua!

Teófilo Dias (1854-1889)
Nasceu em Caxias, no Estado do Maranhão. Realizou os estudos preparatórios em São Luís, e esteve temporariamente no Pará. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde a princípio leciona, depois se emprega na Secretaria da Agricultura. Obtendo colocação no Correio de São Paulo, em 1877 matriculou-se na Academia de Direito. Foi professor e diretor da Escola Normal de São Paulo e deputado provincial. Sobrinho do grande poeta romântico Gonçalves Dias. Obras: Flores e amores (1874); Lira dos verdes anos (1876); Cantos tropicais (1878); Fanfarras (1882); A comédia dos deuses (1887).

NAS ONDAS DE UNS CABELOS…

Soltas, ombros abaixo, os revoltos cabelos,
Que te envolvem num longo e veludoso abraço;
E, como um rio negro, os seus negros novelos
Rolam no vale em flor do teu brando regaço.

E, na louca embriaguez dos meus sentidos, pelos
Cinco oceanos do Sonho o meu roteiro faço,
A senti-los na mão, beijá-los e mordê-los,
Até morrer de amor, sucumbir de cansaço!

E, pousando a cabeça em teu seio, que estua,
Sinto um sono ligeiro, um sussurro de brisa,
Que me suspende ao céu e pelo céu flutua…

E, num sonho feliz, como num mar profundo,
A minh’alma desliza, a minh’alma desliza,
Como as Naus de Colombo, a procura de um Mundo…

(Vaidades. Laemmertz & C., S Paulo, 1908.)

Batista Cepelos (1872-1915)
Nasceu em Cotia, Estado de São Paulo. Frequentou as rodas literárias da Paulicéia e as aulas da Faculdade de Direito, por onde veio a formar-se, em 1902. Bacharel, tentou a advocacia, sem sucesso, deu baixa em sua corporação e foi ser promotor público no interior. Traduziu poemas de Mallarmé e de Baudelaire.

Bibliografia:
A derrubada, S. Paulo, 1896;
O cisne encantado, S. Paulo, 1902 (há uma segunda edição, de 1912, “inteiramente refundida”, e com o título de O cisne);
Os bandeirantes, S. Paulo, 1906, com prefácio de Olavo Bilac;
Vaidades, S. Paulo, 1908, com prefácio de Araripe Júnior;
Maria Madalena, drama bíblico, em versos, representado no Rio, em 30-III-1915 e publicado na Revista de Academia Paulista de Letras, n.° 10, de 12 de junho de 1940, pp. 52-90.

O COQUEIRO

Sofre sereno e intrépido! Asfixia
na garganta a blasfêmia dos protestos!
Cuidas, supões que a dor se te alivia,
por te entregares ao furor dos gestos?
Néscio! Ao fazê-los, face e olhar congestos,
és apenas ludíbrio da agonia!

Já reparaste acaso num coqueiro,
quando, sob um céu baixo,
o vergasta, em lufadas, o aguaceiro?
Que balançar do caule agigantado!
que mover farfalhante do penacho!
Certo lhe deras, vendo-o assim, o intento,
o intento alucinado
de espanejar, limpar o firmamento
das brumas do nevoeiro…
No entretanto, o coqueiro
nada mais é, no louco movimento,
que um joguete do vento…

(Pôr de sol. Imprensa Industrial, Recife, 1920.)

Faria Neves Sobrinho (1872-1927)
Nasceu em Recife, Pernambuco, Joaquim José de Faria Neves Sobrinho foi jornalista, professor de latim do Ginásio Pernambucano, deputado e senador estadual. Seu livro Pôr de sol – porventura o mais conhecido e estimado de quantos escreveu – é composto de versos livres, de pequenos poemas. Pertenceu à Academia Pernambucana de Letras.

Published in: on novembro 17, 2009 at 10:44 pm  Deixe um comentário  
Tags: , ,

O COLCHÃO DENTRO DO TOUCADO

Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena
Que o furtado colchão, fofo, e de pena,
A filha o ponha ali, ou a criada.

A filha, moça esbelta e aparatada,
Lhe diz co’a doce voz, que o ar serena:
“Sumiu-se-lhe um colchão, é forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada”.

“Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que por ter pai embarcado
Já a mãe não tem mãos?” E dizendo isto,

Arremete-lhe à cara e ao penteado;
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado.

Nicolau Tolentino (1740-1811)
Nasceu em Lisboa, Portugal. Em Outubro de 1760 ingressou na Faculdade de Direito, de onde saiu talvez devido à morte da mãe, que lhe trouxe pesados encargos domésticos. Em 1765 foi despachado para Évora como mestre substituto, e logo depois, por influência de amigos, transferiu-se para Lisboa. Em 1769, completa o curso de Direito em Coimbra e é nomeado oficial ordinário da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. Aos sessenta e seis anos, por ocasião da invasão francesa, assiste desolado à partida da Corte e dos amigos para o Brasil. A primeira edição de suas obras, em dois tomos, saiu em 1801, com o título: Obras poéticas de Nicolau Tolentino de Almeida.

A KERMESSE

Às vezes desce à terra a Providência
No raio d’uma estrela luminosa,
Para envolver n’auréola gloriosa
Os querubins do amor e da inocência.

A doce irradiação da onipotência
Penetra cintilante e carinhosa
No albergue da miséria virtuosa,
No doirado palácio da opulência.

É como o sol; desponta no horizonte
Iluminando inteira a natureza
Desde o vale sombrio ao alto monte!

Abençoados, ó anjos de pureza,
Que n’este santo empenho ergueis a fronte
Em favor do cativo e da pobreza!

(Este soneto foi inspirado por ocasião de uma quermesse realizada em favor da abolição dos escravos, no mês de Setembro de 1884, na cidade de Porto Alegre.)

Achylles Porto Alegre (1848-1926)
Nasceu na cidade de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, Brasil. Foi um dos fundadores da Sociedade Parthenon Litterário (1868) e da Academia Rio-Grandense de Letras (1901).

O MAR

Que nostalgia vem das tuas vagas,
Ó velho mar! Ó lutador oceano!
Tu de saudades íntimas alagas
O mais profundo coração humano.

Sim! Do teu choro enorme e soberano,
Do teu gemer nas desoladas plagas,
Sai o quer que é, rude sultão ufano,
Que abre nos peitos verdadeiras chagas.

Ó mar! Ó mar! Embora esse eletrismo,
Tu tens em ti o gérmen do lirismo,
És um poeta lírico demais.

E eu para rir com bom humor das tuas
Nevroses colossais, bastam-me as luas
Quando fazem luzir os seus metais.

Cruz e Sousa (1861-1989)
De nome completo João da Cruz e Sousa. Nasceu na cidade do Desterro, hoje Florianópolis, no Estado de Santa Catarina, Brasil. Poeta simbolista. Entre as suas obras, destacam-se: Broquéis (1893); Faróis (1900); Últimos sonetos (1905).

AR DE INVERNO

Aves do mar, que em ronda lenta
Giram no ar, à ventania,
Gritam na tarde macilenta
A sua bárbara alegria.

Incha lá fora a vaga escura,
Uiva o nordeste aflitamente.
Que mágoa anónima satura
Este ar de Inverno, este ar doente?

Alma que vogas a gemer
Na tarde anémica de vento,
Como se infiltra no meu ser
O teu esparso sofrimento!

Que viuvez desamparada
Chora no ar, no vento frio,
Por esta tarde macerada
Em que a esp’rança se esvaiu.

Roberto de Mesquita (1871-1923)
Nasceu a 19 de Junho de 1871 em Santa Cruz, Arquipélago dos Açores, Portugal. Estudou na ilha natal, na Terceira e no Faial. Foi funcionário da Fazenda Pública, onde chegou a escrivão. Publicou alguns poemas em revistas da época onde os simbolistas pontificavam: Os Novos, Ave Azul. Mas a sua maior colaboração foi em jornais insulares. Faleceu a 31 de Dezembro de 1923. Obra poética: Almas cativas (1931).

Published in: on novembro 17, 2009 at 10:22 pm  Deixe um comentário  
Tags: , ,