O COLCHÃO DENTRO DO TOUCADO

Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena
Que o furtado colchão, fofo, e de pena,
A filha o ponha ali, ou a criada.

A filha, moça esbelta e aparatada,
Lhe diz co’a doce voz, que o ar serena:
“Sumiu-se-lhe um colchão, é forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada”.

“Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que por ter pai embarcado
Já a mãe não tem mãos?” E dizendo isto,

Arremete-lhe à cara e ao penteado;
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado.

Nicolau Tolentino (1740-1811)
Nasceu em Lisboa, Portugal. Em Outubro de 1760 ingressou na Faculdade de Direito, de onde saiu talvez devido à morte da mãe, que lhe trouxe pesados encargos domésticos. Em 1765 foi despachado para Évora como mestre substituto, e logo depois, por influência de amigos, transferiu-se para Lisboa. Em 1769, completa o curso de Direito em Coimbra e é nomeado oficial ordinário da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. Aos sessenta e seis anos, por ocasião da invasão francesa, assiste desolado à partida da Corte e dos amigos para o Brasil. A primeira edição de suas obras, em dois tomos, saiu em 1801, com o título: Obras poéticas de Nicolau Tolentino de Almeida.