Um soneto de Raphael Clark

DUPLA INCERTEZA

Mal-me-quer… tu dirás; mas nem sei se te quero,
Insinuante visão, que outrora amei na vida,
E que foste por mim no mundo a preferida
Mal-me-quer… mal-me-quer! entanto te venero.

Bem-me-quer… pensarás, talvez, mulher fingida
Mas, se escuto teu nome, às vezes desespero…
E assim quero viver distante, rude e austero.
Sem nunca mais te ver, – embora a alma abatida!

Mal-me-quer… bem-me-quer… E a tua vida encerro
Hoje, neste amargoso e tétrico dilema,
Fazendo-te sofrer num círculo de ferro.

E eu também, como tu, prossigo neste enleio
Pois não sei se te voto adoração extrema,
Nem mesmo sei dizer, Mulher, se inda te odeio!

Raphael Clark (1880-1926).
Nasceu na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Poeta, orador e advogado. Pertenceu à várias entidades literárias e culturais.

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Published in: on abril 15, 2009 at 6:56 am  Deixe um comentário  
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Carlos Ferreira, poeta porto-alegrense

IDÍLIO

Vamos, amor, por esses campos fora,
asas abrindo à doce luz da vida,
ouvir a terna, a meiga, a apetecida
canção que entoa a terra à deusa Aurora.

Vamos, que é tempo. A natureza inflora
montes, vales, vergéis, e embevecida
treme de amor a rosa. Ouves, querida,
a ave que canta? a viração que chora?

Vês? Que alegre manhã, Todo o arvoredo
tão fresco e bom! O alegre passaredo
enche a selva de mágico rumor…

Pois cantemos também, vamos risonhos
haurir a vida em turbilhões de sonhos,
asas abrindo ao quente sol do amor! . . .

Carlos Ferreira (1844-1913).
Poeta e jornalista porto-alegrense. Patrono da cadeira n° 7 da Academia Rio-Grandense de Letras.

Published in: on abril 15, 2009 at 6:53 am  Deixe um comentário  
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Um soneto de José da Natividade Saldanha

A SUA CONDENAÇÃO À MORTE

Em vão pretendes, monstro sanguinoso,
Sobre mim desfechar teu golpe injusto:
Fui condenado à morte?… não me assusto;
Não me acobarda* teu decreto iroso.

Sim, a pátria perdi, fui desditoso,
Mas vivo sob as leis de um povo augusto,
E o rei dos orbes poderoso e justo
Não tardará de ouvir meu som queixoso.

Une os escravos, que o Brasil encerra,
Invoca as fúrias do tremendo Averno**,
Desfaz-te mesmo enfim, nada me aterra.

Há de ser contra ti meu ódio eterno,
E hei de, enquanto viver, fazer-te guerra,
Na terra, e mar, e céu, e mesmo inferno.

* Acobarda: acovarda.
** Averno: Inferno.

José da Natividade Saldanha (1795-1832)
Nasceu no Recife, Estado de Pernambuco. Depois dos estudos secundários em Olinda, seguiu para Coimbra (Portugal), a estudar Direito, formando-se em 1823. De regresso ao Brasil, envolveu-se no movimento da Confederação do Equador; depois de breve estada nos Estados Unidos, refugiou-se em Bogotá (Colômbia), vivendo da advocacia e do magistério, onde faleceu. Obras poéticas: Poesias oferecidas aos amantes do Brasil (1822); Poesias (1875).

Published in: on abril 15, 2009 at 6:49 am  Deixe um comentário  
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Francisco Germano Dee, poeta do Arquipélago da Madeira

A UMA DAMA

(Imitado de Victor Hugo)

Donzella, s’eu fôra rei,
oh! de bom grado daria
toda a rica pedraria,
de valor… que nem eu sei!…
E nem só joias, e oiro,
mas outro maior thesoiro:
meu septro e c’roa de rei
por um só olhar dos teus!…
Se rei não fôra, mas Deus,
daria os mares, e a terra,
e os milhões d’astros que encerra
o amplo espaço dos céos;
os sons do mar gemebundo,
a eternidade e o mundo,
tudo, tudo te daria
por um só beijo dos teus!…

Francisco Germano Dee, pseudônimo de Germano Francisco de Barros Henriques (1805-1856)
Nasceu no Estreito de Câmara de Lobos, Arquipélago da Madeira. Poeta, escrivão, professor público. Distinguiu-se ainda como poliglota, falando corretamente latim, francês, inglês e espanhol. Seguiu a escola literária de Filinto Elísio. Faleceu em 1856, vítima de uma epidemia de cólera. Escreveu um livro intitulado “Lições de arte poética” e colaborou em “A Discussão” e no “Novo Almanaque Luso-Brasileiro”.

Published in: on abril 15, 2009 at 6:46 am  Deixe um comentário  
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Um poema de Marinês Bonacina

ESCARPA

O vento
alisa os rochedos
na escarpa do tempo.
Centelhas de vida
rebrilham e se apagam
nas veredas do sol.
À noite, os sonhos
emudecem
os segredos, os mitos
as almas de pedra.
No silêncio
os ritos da consumação.

Porto Alegre, 21/02/2003.

Marinês Bonacina
Nasceu a 07/07/1964, em Nova Bréscia, Rio Grande do Sul. Profissional de Comunicação jornalismo, ativista Cultural e poeta. Presidenta Casa do Poeta Latino-Americano – CAPOLAT. Pertence à Academia de Letras dos Municípios do RS. Ex-vice-presidenta e Diretora de Imprensa da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil-AJEB Gestão (2004/06).

Published in: on abril 15, 2009 at 6:44 am  Deixe um comentário  
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Antônio de Godói, poeta simbolista brasileiro

ROMARIA – VI

Ao Irmão Adolfo Araújo

Soror Teresa, a imaculada ovelha,
Na espiritual viuvez do sofrimento
Transfigurada pela Dor que engelha,
Bale a Jesus na cela de um convento.

Noiva, talvez… Percebe-se a centelha
De extinto Amor no seu olhar poento…
Diante da Imagem de Jesus se ajoelha
Para a Jesus pedir maior tormento!

Olhos de uma extra-humana claridade,
Nimbados pelo Poente da Saudade
No refúgio claustral das Agonias…

As outras freiras ao cilício expostas
Vêem-na passar, à noite de mãos postas,
Sonambulando pelas arcarias…

Antônio de Godói (1873-1905)
Nasceu em Pindamonhangaba, Estado de São Paulo. Poeta, delegado de polícia, jornalista. Formou-se em Direito pela Faculdade do seu Estado e encarreirou-se na polícia. Delegado, percorreu o interior dando perseguição às quadrilhas de criminosos que o infestavam. Nessa missão colheu os elementos para o livro em que, sob o pseudônimo de Silvestre da Mata, narrou as proezas do célebre Dioguinho (1903). Pertenceu à redação do Correio Paulistano – do qual foi secretário – tendo por companheiros Wenceslau de Queiroz, Carlos de Campos, Amadeu Amaral. Colaborou no Álbum, de Artur de Azevedo, e em A Semana, de Valentim Magalhães. Ao falecer ocupava o cargo de chefe de polícia de São Paulo. Em edições póstumas (1906) foram editadas as suas Crônicas de Egas Moniz, com prefácio de Wenceslau de Queiroz, uma Excursão à Ilha do Búzio, em colaboração com Alberto Sousa, e as Poesias, com prefácio de Antônio Sales.

Alexandre Herculano

DEUS

Nas horas de silêncio, à meia-noite,
Eu louvarei o Eterno!
Ouçam-me a terra, e os mares rugidores,
E os abismos do Inferno.
Pela amplidão dos céus meus cantos soem,
E a Lua resplendente
Pare em seu giro, ao ressoar nest’harpa
O hino do Omnipotente.

Antes de tempo haver, quando o infinito
Media a eternidade,
E só do vácuo as solidões enchia
De Deus a imensidade,
Ele existia, em sua essência envolto,
E fora dele o nada:
No seio do Criador a vida do homem
Estava ainda guardada;
Ainda então do mundo os fundamentos
Na mente se escondiam
De Jeová, e os astros fulgurantes
Nos céus não se volviam.

Eis o Tempo, o Universo, o Movimento
Das mãos solta o Senhor.
Surge o Sol, banha a Terra, desabrocha
Nesta a primeira flor;
Sobre o invisível eixo range o globo;
O vento o bosque ondeia;
Retumba ao longe o mar; da vida a força
A natureza anseia!

Quem, dignamente, ó Deus, há-de louvar-Te,
Ou cantar Teu poder?
Quem dirá de Teu braço as maravilhas,
Fonte de todo o ser,
No dia da Criação; quando os tesouros
Da neve amontoaste;
Quando da Terra nos mais fundos vales
As águas encerraste?!

E eu onde estava. quando o Eterno os mundos,
Com dextra poderosa,
Fez, por lei imutável, se livrassem
Na mole ponderosa?
Onde existia então? No tipo imenso
Das gerações futuras;
Na mente do meu Deus. Louvor a Ele
Na Terra e nas alturas!
Oh, quanto é grande o rei das tempestades,
Do raio, e do trovão!
Quão grande o Deus, que manda, em seco estio,
Da tarde a viração!
Por Sua providência nunca, embalde,
Zumbiu mínimo insecto;
Nem volveu o elefante, em campo estéril,
Os olhos inquieto.
Não deu Ele à avezinha o grão da espiga,
Que ao ceifador esquece:
Do norte ao urso o sol da Primavera,
Que o reanima e aquece?
Não deu Ele à gazela amplos desertos,
Ao certo a amena selva,
Ao flamingo os pauis, ao tigre o antro,
No prado ao touro a relva?
Não mandou Ele ao mundo, em luto e trevas,
Consolação e luz?
Acaso em vão algum desventurado
Curvou-se aos pés da Cruz?
A quem não ouve Deus? Somente ao ímpio
No dia da aflição,
Quando pesa sobre ele, por seus crimes.
Do crime a punição.

Homem, ente imortal, que és tu perante
A face do Senhor?
És a junça do brejo, harpa quebrada
Nas mãos do trovador!
Olha o velho pinheiro, campeando
Entre as neves alpinas:
Quem irá derribar o rei dos bosques
Do trono das colinas?
Ninguém! Mas ai do abeto, se o seu dia
Extremo Deus mandou!
Lá correu o aquilão: fundas raízes
Aos ares lhe assoprou.
Soberbo, sem temor, saiu na margem
Do caudaloso Nilo,
O corpo monstruoso ao sol voltando,
Medonho crocodilo.
De seus dentes em roda o susto habita:
Vê-se a morte assentada
Dentro em sua garganta, se descerra
A boca afogueada:
Qual duro arnês de intrépido guerreiro
É seu dorso escamoso;
Como os últimos ais de um moribundo
Seu grito lamentoso:
Fumo e fogo respira quando irado;
Porém, se Deus mandou,
Qual do norte impelida a nuvem passa,
Assim ele passou!

Teu nome ousei cantar! Perdoa, ó Nume;
Perdoa ao teu cantor!
Dignos de ti não são meus frouxos hinos,
Mas são hinos de amor.
Embora vis hipócritas te pintem
Qual bárbaro tirano:
Mentem, por dominar com férreo ceptro
O vulgo cego e insano.
Quem os crê é um ímpio! Recear-te
É maldizer-te, ó Deus;
É o trono dos déspotas da Terra
Ir colocar nos Céus.
Eu, por mim, passarei entre os abrolhos
Dos males da existência
Tranquilo, e sem temor, à sombra posto
Da Tua Providência.

Alexandre Herculano (1810-1877)
Nasceu em Lisboa. Poeta, romancista, historiador, político. Até aos 15 anos frequentou o Colégio dos Padres Oratorianos de S. Filipe de Néry, onde recebeu uma formação de índole essencialmente clássica. Impedido de prosseguir os estudos universitários ficou disponível para adquirir uma sólida formação literária que passou pelo estudo de inglês, francês, italiano e alemão, línguas que foram decisivas para a sua obra. Como soldado, participou em ações de elevado risco e mérito militar. Foi nomeado por D. Pedro IV segundo bibliotecário da Biblioteca do Porto, onde permanceu até ter sido convidado a dirigir a Revista Panorama. Em 1852, foi eleito para a Academia das Ciências de Lisboa. Em 1857, após o seu casamento, retirou-se definitivamente para a sua quinta de Vale de Lobos, em Santarém, para se dedicar à agricultura e a uma vida de recolhimento espiritual. Juntamente com Almeida Garrett, é considerado o introdutor do Romantismo em Portugal. Obras poéticas: A voz do profeta (1836); A harpa do crente (1838); Poesias (1850).

Published in: on abril 15, 2009 at 6:34 am  Deixe um comentário  
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Um poeta açoriano

ODE

Exulta, Faial, a fronte adorada
De cívicos lauréis; e desterrando
Do peito heróico, o teu inquieto susto
Honra e Congresso Augusto.

Oh! Teu triunfo eu vi; eu vi os monstros
Ranger de raiva os cariosos dentes:
De confusão ralados, dando gritos
Quais réprobos preceitos.

Eu vi no Santo Alcácer as Virtudes
Aplaudirem da Deusa os sãos Ministros
E o mesmo Tejo alçado sobre o leito
Tributar-lhe respeito.

Descansa em paz, ó Ilha venturosa;
Em paz disputa os bens que o céu outorga
E por memória eterna deste dia
Transborada de alegria.

António da Silveira Bulcão (1781- ? )
Nasceu na Vila da Madeira, ilha do Pico, Arquipélago dos Açores. Poeta, escrivão da Alfândega, advogado provisionado. Algumas das suas muitas produções poéticas foram publicadas nas revistas “Grémio Literário” e “História das quatro ilhas”.

Castilho: poeta, prosador e tradutor português

OS SONHOS

Recordas-te, ingrata,
Quando eu te dizia,
Que em sonhos Armia
Cedia aos meus ais?
Sorrias, coravas,
Fugias, juravas
Que nunca os meus sonhos
Seriam leais.

Armia, esta noite,
Segundo o costume,
Tornei co meu nume,
Tornei a sonhar.
Qual és, eras rosa,
Gentil, espinhosa,
Sem par nos rigores,
Nas graças sem par.

Dou graças ao fado,
Já sonho esquivança;
Já luz esperança
No meu coração.
Tu juras que em sonhos
Só há falsidades,
E nunca deidades
Juraram em vão.

António Feliciano de Castilho (1800-1875)
Nasceu em Lisboa. Poeta, prosador, tradutor. Aos seis anos de idade, em consequência de uma doença, ficou cego. Com dezessete anos matriculou-se na universidade, aonde estudou Direito. Dedicou-se a vários ramos do conhecimento como a literatura, a história e as línguas antigas e modernas. Traduziu, entre outras, obras de Ovídio, Virgílio, Anacreonte, Públio Círio, Molière, Shakespeare, Goethe. A sua obra original é muito ampla, e dela, destacam-se em verso: Cartas de Eco e Narciso (1821); A Primavera; Amor e melancolia; A noite de castelo; Ciúmes do bardo; Escavações poéticas.

Published in: on abril 15, 2009 at 6:30 am  Deixe um comentário  
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Um poeta gaúcho

FLOR DA DECADÊNCIA

Sou como o guardião dos tempos do mosteiro!
Na tumular mudez dum povo que descansa,
As criações do Sonho, os fetos da Esperança
Repousam no meu seio o sono derradeiro.

De quando em vez eu ouço os dobres do sineiro:
É mais uma ilusão, um féretro que avança…
Dizem-me – Deus… Jesus… outra palavra mansa
Depois um som cavado – a enxada do coveiro!

Minh’alma, como o monge à sombra das clausuras,
Passa na solidão do pó das sepulturas
A desfiar a dor no pranto da demência.

– E é de cogitar insano nessas cousas,
É da supuração medonha dessas lousas
Que medra em nós o tédio – a flor da decadência!

Fontoura Xavier (1856-1922)
Nasceu em Cachoeira do Sul, Estado do Rio Grande do Sul. Poeta, tradutor, jornalista, diplomata. Frequentou a antiga Escola Central do Rio de Janeiro e a Faculdade de Direito de São Paulo, sem concluir, entretanto, os respectivos cursos. Entre os anos de 1874 e 1891, aproximadamente, colaborou nos periódicos Bezouro, Gazeta de Notícias, Repórter e Revista Ilustrada, do Rio de Janeiro. Ao longo da vida, traduziu poemas de Edgard Allan Poe, Baudelaire, Foley, Moréas, Prudhomme e Shakespeare. Foi um dos fundadores, em 1880, do jornal Gazetinha. Foi redator do jornal carioca A Semana, em 1883. Publicou, em 1884, o livro de poesia Opalas. Entre 1885 e 1922 serviu como diplomata nos Estados Unidos da América, Suíça, Argentina, Guatemala, Inglaterra, Espanha e Portugal. Em 1887 lançou, no Rio de Janeiro, o panfleto em versos O Régio Saltimbanco, contra a monarquia. É o patrono na Academia Rio-Grandense de Letras, da cadeira n° 14.

Published in: on abril 15, 2009 at 6:27 am  Deixe um comentário  
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