O COQUEIRO

Sofre sereno e intrépido! Asfixia
na garganta a blasfêmia dos protestos!
Cuidas, supões que a dor se te alivia,
por te entregares ao furor dos gestos?
Néscio! Ao fazê-los, face e olhar congestos,
és apenas ludíbrio da agonia!

Já reparaste acaso num coqueiro,
quando, sob um céu baixo,
o vergasta, em lufadas, o aguaceiro?
Que balançar do caule agigantado!
que mover farfalhante do penacho!
Certo lhe deras, vendo-o assim, o intento,
o intento alucinado
de espanejar, limpar o firmamento
das brumas do nevoeiro…
No entretanto, o coqueiro
nada mais é, no louco movimento,
que um joguete do vento…

(Pôr de sol. Imprensa Industrial, Recife, 1920.)

Faria Neves Sobrinho (1872-1927)
Nasceu em Recife, Pernambuco, Joaquim José de Faria Neves Sobrinho foi jornalista, professor de latim do Ginásio Pernambucano, deputado e senador estadual. Seu livro Pôr de sol – porventura o mais conhecido e estimado de quantos escreveu – é composto de versos livres, de pequenos poemas. Pertenceu à Academia Pernambucana de Letras.

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Published in: on novembro 17, 2009 at 10:44 pm  Deixe um comentário  
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