CÂNTICO

âmago
ser libertino
mescla-se com líquido
em manhoso êxtase
o deleite compassa o desatino
tatuo um poema no seu dorso
manifesto silente de mistérios
a madrugada estimula tramas
estrelas brincam no espelho d’alma
orvalho
o paladar do amanhecer
são versos
em papiro imaculado

José Geraldo Neres é poeta, ficcionista e roteirista. Publicou: Pássaros de papel (2007), Outros Silêncios (2009, realizado com o apoio da Fundação Biblioteca Nacional e do ProAC) e Olhos de barro (2010, menção especial na 3ª edição do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura).

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DEUSES E MITOS

Bilhões de auroras foram necessárias
Até que o fogo se fizesse lava,
Até que a lava se fizesse pedra,
Até que a pedra se fizesse Terra.

Bilhões de auroras foram necessárias
Até que os brutos se tornassem homens,
Até que os homens se tornassem anjos,
Até que os anjos se tornassem Deuses.

Bilhões de auroras foram necessárias
Até que os homens inventassem mitos,
Até que os mitos constituíssem fé.

Contudo apenas uma aurora basta
Para que os homens, finalmente homens,
Cancelem mitos e estraçalhem Deuses.

(Lua ó)

Gastão Torres
Poeta nascido em Venâncio Aires, Rio Grande do Sul, Brasil.

DE QUE VALE O REINO

Exíguo é o corpo
onde instauro o poema

Devassada sinto-lhe a permanência
o salto frustrado
o verso em pânico

Ávidos
o matamos
na luta pela posse
onde inventamos as leis
e detemos o patrimônio

Nessa guerra
agressivos
geramos nossos filhos:
— A mão oclusa
acionando gatilhos

Da fera
visíveis se mostram os delitos
o oculto bote
os enigmas

Em vão forjei coisas maiores
e deixei o amor crescer
entre um verso e outro

Há trinta e nove anos
assisto os mesmos crimes
o silêncio crestando a fala

De que vale o reino
com seus pomos de usura
e a loucura dos gumes

De que vale o reino
e sua espada
o viço da bandeira
as honrarias
se poucos são os convivas
junto à mesa

César Pereira (1934)
Nasceu em Taquari, Estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Poeta, contista, cronista. Pertence à Academia Riograndense de Letras. Foi o lançador da Poesia Concreta no Rio Grande do Sul em 1958, e em 1965 da Poesia Visual, sendo um dos precursores no País. Conquistou em 1986, o 1º lugar no Concurso Nacional de Poesia PETROBRÁS, na época um dos maiores do Brasil. Publicou: Carrossel de cinzas (1960); Dardos de ajuste (1974); Porta de emergência (1989); Gaveta de achados (2008).

TÉDIOS

Como um fluido a vagar pelos espaços,
A alma em crepúsc’los outonais aberta,
Surpreendi-me ao claror da luz incerta
Caminhando a chorar para os teus braços.

Tu vinhas para mim a lentos passos
Sobre rosais floridos! e entreaberta
A tua boca me sorriu, desperta
Toda a harmonia imácula dos traços.

Caía um poente evocativo e frouxo.
Da mesma paz dos mortos coroada,
No céu a lua e a meu lado um mocho.

As tuas tranças… Quantos tédios velhos…
Languescência eteral de alma exilada
Contemplando as visões dos Evangelhos…

ÁLVARO VIANA (1882-1936)
Poeta simbolista mineiro.

CINZAS E BEBIDAS

Da sombra risonha eterna da esperança
Salpicam lavas gritantes de um vulcão
Da sombra negra e imorredoura da saudade
Brotam flores de um jardim esquecido

Do rastro longo da amargura perdida
Nasce um dia borbulhante de alegria
Do manheiroso e berrante apogeu do sol
Nasce o negror da noite que se avizinha

Da bruma calma, vacilante e enganadora
Reerguem-se castelos pálidos de tremor
No afã de rabiscar altitudes imensas

Do frescor rutilante do amanhecer
Jorram cinzas e bebidas do passado
Surgindo da beira do asfalto um perfil de mulher

Dimitri Pedrazzi

A GREGÓRIO DE MATOS

És Pátria Perpétua
Palco de onde brotam flores
Rebentos, também, de críticas sociais…
Feitiço de guerra justa…
Desperta a aurora deste chão
Muitos séculos depois
BOCA SANTA!
Beija e ama as tuas Angélicas
através dos tempos
Segue pelos matos da verdade, Gregório,
E declara a GUERRA DOS POETAS
Que põe em prontidão a Humanidade!

Fernanda Pedrazzi

VER-O-POEMA – 5 ANOS

Ano 395 de Santa Maria de Belém do Grão-Pará

Vem aí o Novo Ver-O-Poema. Veja como você vai participar, interagir, publicar textos, falar com os amigos escritores. Tudo através do Ver-O-Poema.

Visite nossas publicações recentes:.

INDECIFRÁVEL – poemas reunidos de Alberto cohen

Chão do Caminho – Canção de Vital Lima

Às vezes eu choro três vezes… – Celso de Alencar

Novos fragmentos de um livro leve que virá – Edmir Carvalho Bezerra

MEU TEMPO MENINO – ainda em cartaz no Ver-O-Poema

QUARTO NÚMERO DEZ: o amor

NATURE – poema visual – Joaquim Branco

ENTROPIA – Lílian Maial

MOSTRUÁRIO 40 – poesia – Edson Bueno de Camargo

Último Ato – de Camila Cristina e Floriano Santos

Contagem regressiva para o novo Ver-O-Poema – Edmir Carvalho Bezerra

http://www.veropoema.net

VOZES POÉTICAS UNIVERSAIS: Poesia das Américas do Norte, Central e do Sul

CONVITE

A Casa de Cultura Mario Quintana apresenta o quinto espetáculo do projeto VOZES POÉTICAS UNIVERSAIS 2010, idealizado e coordenado pelo poeta, editor e pesquisador gaúcho Paulo Bacedônio.

O projeto compreende uma série de cinco espetáculos bimensais, sendo este o último, temático sobre a Poesia das Américas do Norte, Central e do Sul, com a leitura de poemas de poetas clássicos e contemporâneos nascidos neste continente.

Dentro das atividades do espetáculo haverá uma homenagem especial à poeta chilena Gabriela Mistral, Prêmio Nobel de Literatura de 1945.

Destaca-se ainda que será editado especialmente para este espetáculo o livro de bolso Quatro poetas das Américas, em uma edição semiartesanal e numerada, que será sorteada para o público.

O QUÊ: POESIA DAS AMÉRICAS DO NORTE, CENTRAL E DO SUL
Quinto espetáculo do projeto Vozes Poéticas Universais 2010

QUANDO: Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010, às 19horas

ONDE: Quintana’s Bar / Acervo Mario Quintana – Mezanino
Casa de Cultura Mario Quintana
Rua dos Andradas, 736
Porto Alegre – Rio Grande do Sul
Brasil

ENTRADA FRANCA

Apoio Cultural: Instituto Cultural Português, Academia de Letras do Brasil, Casa do Poeta Latinoamericano e Instituto Amigos do Livro Argentino e Americano

Visite o Blog Farolante, de arte e cultura:
https://farolante.wordpress.com

DE COMO LIDAR COM RIO

Represar um rio é impossível.
O rio insulta a barragem.

Se sustém uma folha calma de lago,
amplia suas pernas de Heráclito.

Veloz, recortará efígies das escarpas
e nas curvas fará ondas de mar.

Mas se segue da nascente à foz,
na outra margem é que está a flor.

Não é pisando em peixes
que conseguiremos atravessá-lo.

Largo, pinguela nele não cabe,
ponte não nos dará conhecê-lo.

Não seria sábio auscultar
o diário vaivém dos pássaros?

Com os braços dar forma
ao nosso sonho de asas?

De dentro domá-lo para sempre
com um simples remo?

Sidnei Schneider (1960)
Nasceu em Cruz Alta, Rio Grande do Sul, Brasil. Poeta, contista, tradutor. Traduziu e publicou poemas esparsos de William Blake, Nicanor Parra, Vladimir Maiakóvski, Rúben Darío, Pablo Neruda. Publicou: Quichiligangues (2009); Plano de navegação (1999); Versos singelos, José Martí (tradução, 1997).

Blog: http://umbigodolago.blogspot.com

VISÃO

Tanto brilhava a luz da lua clara,
Que para ti me fui encaminhando.
Murmurava o arvoredo, gotejando
Água fresca da chuva que estancara.

Longe de prata semeava a seara…
O teu castelo, à lua crepitando,
Como um solar de vidros formidando,
Vi-o como ardentíssima coivara.

Cantigas de cigarra na devesa…
E, pela noite muda, parecia
Cantar o coração da natureza.

Foi então que te vi, formosa, imagem,
Surgir entre roseiras, fria, fria,
Como um clarão da lua na folhagem.

Oscar Rosas (1864-1925)
Poeta simbolista nascido no Estado de Santa Catarina, Brasil. Dedicou-se ao comércio e depois ao jornalismo. Foi deputado estadual, diretor da Imprensa Oficial e funcionário da Inspetoria Federal das Estradas de Ferro. Deixou muitas produções esparsas em jornais da sua terra e do Rio de Janeiro. Um dos mais fiéis amigos de Cruz e Sousa. É patrono da cadeira n° 36 da Academia Catarinense de Letras.