“Espera sensual”, do poeta equatoriano Simón Zavala Guzmán

ESPERA SENSUAL

Porém agora é de noite.
Quantas vezes se cansa tua
Inegável presença
Lutando humanamente sobre a minha
pele, que sua?

Escorregas em minhas mãos
de ourives taciturno,
modelador de sonhos inconclusos,

como esta mesma noite que
é um fio
rugindo entre as horas
até cortar a interminável
espera.

Só sei, que em tua partida
de onda tempestuosa
há um mar cósmico
refletindo tua essência
e eu, sou um penhasco,
que rompe na intempérie
tua lúbrica cortiça.

(Tradução de Nina Reis, escritora brasileira)

Simón Zavala Guzmán
Nasceu em Guayaquil, Equador. Licenciado en Ciências Públicas e Sociais. Doutor em Jurisprudência e Advogado. Tem publicado em jornais e revistas, ensaios e artigos literários, jurídicos, políticos e poemas.

Conheça sua página na internet: http://www.oplibros.com/simonzavalaguzman.html

Published in: on abril 9, 2009 at 11:43 pm  Deixe um comentário  
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Um poema de Guerra Junqueiro sobre o Brasil

FOME NO CEARÁ

I

Lançai o olhar em torno;
Arde a terra abrasada
Debaixo da candente abóbada dum forno.
Já não chora sobre ela orvalho a madrugada;
Secaram-se de todo as lágrimas das fontes;
E na fulva aridez aspérrima dos montes,
Entre as cintilações narcóticas da luz,
As árvores antigas
Levantam para o ar – atléticas mendigas,
Fantasmas espectrais, os grandes braços nus.

Na deserta amplidão dos campos luminosos
Mugem sinistramente os grandes bois sequiosos.
As aves caem já, sem se suster nas asas.
E, exaurindo-lhe a força enorme que ela encerra,
O Sol aplica à Terra
Um cáustico de brasas.

O incêndio destruidor a galopar com fúria,
Como um Átila, arrasta a túnica purpúrea
Nos bosques seculares;
E, Lacoontes senis, os troncos viridentes
Torcem-se, crepitando entre as rubras serpentes
Com as caudas de fogo em convulsões nos ares.

O Sol bebeu dum trago as límpidas correntes;
E os seus leitos sem água e sem ervagens frescas,
Co’as bordas solitárias,
Têm o aspecto cruel de valas gigantescas
Onde podem caber muitos milhões de párias.
E entre todo este horror existe um povo exangue,
Filho do nosso sangue,
Um povo nosso irmão,
Que nas ânsias da fome, em contorções hediondas,
Nos estende através das súplicas das ondas
Com o último grito a descarnada mão.

E por sobre esta imensa, atroz calamidade,
Sobre a fome, o extermínio, a viuvez, a orfandade,
Sobre os filhos sem mãe e os berços sem amor,
Pairam sinistramente em bandos agoireiros
Os abutres, que são as covas e os coveiros
Dos que nem terra têm para dormir, Senhor!

E sabei – monstruoso, horrível pesadelo! –
Sabei que aí – meu Deus, confranjo-me ao dizê-lo! –
Vêem-se os mortos nus lambidos pelos cães,
E os abutres cruéis com as garras de lanças,
Rasgando, devorando os corpos das crianças
Nas entranhas das mães!

Guerra Junqueiro (1850-1923)
Nasceu em Freixo-de-Espada-à-Cinta. Poeta, lavrador, político, advogado. Tendo terminado no Liceu os preparatórios, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, por onde se formou. Foi eleito deputado em 1880 por Viana do Castelo. Ao ser proclamada a república, em 1910, foi nomeado ministro de Portugal em Berna. Aos quatorze anos escreveu Duas páginas dos quatorze anos, que são os seus mais antigos versos conhecidos, e aos dezessete as Vozes sem eco. Publicou, entre outras, as seguintes obras: A morte de D. João, poema lírico e satírico; A musa em férias, idílios e sátiras; A velhice do padre eterno; Os simples; Pátria; Oração ao pão.

Published in: on abril 9, 2009 at 11:29 pm  Deixe um comentário  
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Um poeta de Cabo Verde

POEMA XI

A minha Pátria é uma montanha
Olímpica, tamanha!
Do seio azul do Atlântico brotada
E aos astros com vigor arremessada
Pelo braço potente do Criador,
Sobranceia cem léguas em redor.

E tão alta que acima do seu cume
Só o plaustro de Apolo coruscante,
Só o bando estelar de águias de lume
E a mente ousada de um Camões ou Dante!
Como é formosa
E majestosa
A minha amada
Terra natal!

Quer do Sol sob a clâmide doirada,
Quer da Lua sob a lúcida cambraia,
É tão formosa que não tem rival!

Além das nuvens alevantada,
O bravo Oceano a seus pés desmaia!

Para a glória do mando fê-la Deus
Altiva e forte, generosa e brava:

Assim foram outrora os filhos seus!

Se lhe palpita o coração robusto,
Em derredor tudo estremece logo:

Pálida e fria de pavor a Brava,
E, em ânsias, Santiago e o Maio adusto.
Fala… e as palavras fluem em torrentes
De lavas rugidoras e candentes…

Na verdade, escutai! – chama-se Fogo!
…………………………………………………………..
Quando vier, Pátria amada,
A morte p’ra me levar,
Deixa-me a fronte cansada
Em teu seio repousar!

Pedro Cardoso (1890-1942)
Nasceu em Fogo, Cabo Verde. Publicou, entre outras, as seguintes obras: Cantares (1907); Primícias (1908); Cabo-Verdianas (1908); Jardim das Hespérides (1926); Sonetos e redondilhas (1934); Morna e saudade (1940); Cadernos luso-caboverdianos (1941-42).

Published in: on abril 9, 2009 at 11:27 pm  Deixe um comentário  
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Vespasiano Ramos

ÂNSIA MALDITA

Ninguém mais do que tu saberá quanto
Padeço, agora! e, em lágrima, advinha
A minh’alma apagar-se, neste pranto,

Beatriz! Alma em flor! Suave encanto,
Que me salvar, pensei, dos altos, vinha:
O quanto peno, o quanto sofro, enquanto
Imagino que nunca serás minha!

Foram, por ti, as lágrimas que os olhos
Meus derramaram! só por ti, somente
Que minh’alma, do Amor contra os escolhos,

Há de, convulsa, soluçar, um dia,
A derradeira lágrima pungente
E o derradeiro grito de agonia!

Vespasiano Ramos (1884-1916)
Nasceu em Caxias, Estado do Maranhão. Desde cedo começou a trabalhar no comércio local, no entanto buscando sempre o saber tornou-se um viajante compulsivo. Durante a sua vida viajou por quase toda a região Norte e também o Sul do Brasil. Passou seus últimos dias na então vila de Porto Velho, Comarca de Humaytta, Estado do Amazonas, hoje município de Porto Velho, capital do Estado de Rondônia. Publicou sua obra poética em diversos jornais e revistas. É considerado o precursor da literatura em Rondônia. Em sua homenagem foi contruído um grande centro recreativo, em Rondônia, e no Maranhão, uma das mais belas praças da capital recebeu o seu nome. É patrono da cadeira n° 32 da Academia Maranhense e também da cadeira n° 40 da Academia Paraense de Letras.

Published in: on abril 9, 2009 at 11:24 pm  Deixe um comentário  
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João Ribeiro, poeta sergipano

MUSEON

IV

Este vaso quem fez, por certo fê-lo
Folhas de acanto e parras imitando.
É de ver-se a asa fosca o setestrelo
De saboroso cacho alevantando.

Que desejo viria de sorvê-lo
Os gomos todos um a um sugando,
Quando, contam, dos pássaros o bando
Do céu descia prestes a bebê-lo.

Examina este vaso. N’um momento
Crê-se vê-lo a voar, o movimento
D’asa soltando, como aéreo ninho …

Será verdade que este vaso voa
Ou porventura à mente me atordoa
Seu capitoso odor de antigo vinho?

João Ribeiro (1860-1934)
Nasceu em Laranjeiras, Estado de Sergipe. Poeta, jornalista, crítico, filólogo, historiador, pintor, tradutor. No Rio de Janeiro fez carreira depois de cursar Medicina, sem concluir o curso, na Bahia. Por concurso público, trabalhou na Biblioteca Nacional e depois no renomado Colégio Pedro II, na cadeira de Português. Estudioso de filologia, o que o levou a ter um papel decisivo nas reformas da própria língua nacional. Chegou a fazer estudos de pintura na Europa e a expor seus quadros mas foi no jornalismo e na literatura onde recebeu o reconhecimento por sua contribuição. Pertenceu à Academia Brasileira de Letras. Faleceu no Rio de Janeiro. Obras poéticas: Tenebrosa lux (1881); Dias de sol (1884); Avena e cítara (1885); Versos (1885).

Published in: on abril 9, 2009 at 11:22 pm  Deixe um comentário  
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Um poema de Joaquim Moncks

DORME COMIGO A ILHA DIFÍCIL

in memoriam de Lila Ripoll

Deitada sobre travesseiros
a poesia dorme.
Fechou os olhos com o traço nobre
dos talentos.

Geme sua inexorável beleza
no lento arfar do peito.
Uma borboleta pousa, encabulada,
em suas pálpebras.
É sonolento o gesto de afastá-la.

Lençóis também sonham,
enquanto teço o verso.

Ressona como um gato siamês,
seu longo rabo, suas garras de veludo.
Ressona o cicio do vento sobre os coqueiros.

Há muitos e muitos séculos
sinto a mesma cena:
soluço de sono e mar
batendo o rosto da praia.
E a vontade de dormir com ela
no movimento das ondas.

Inexoravelmente.

Joaquim Moncks (1946)
Nasceu em Pelotas, Estado do Rio Grande do Sul. Poeta, oficial da Brigada Militar, advogado, ensaísta, conferencista, ativista cultural. Colabora em vários jornais e revistas do Rio Grande do Sul e do País. Tudo o que publicou em prosa está disperso em mais de uma centena de antologias e coletâneas. Durante os anos 2003 a 2006, ministrou Oficinações Poéticas em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Pertence, entre outras, às seguintes entidades literárias: Academia Sul-Brasileira de Letras, Academia Literária Gaúcha, Sociedade Partenon Literário, Estância da Poesia Crioula, Academia Internacional Maçônica de Letras. Obras publicadas: Ensaio livre (1973); Força centrífuga (1979); Itinerário(?) (1983); O eu aprisionado (1986); O sótão do mistério (1992); Poço das almas (2000); Ovo de Colombo (2005).

Published in: on abril 9, 2009 at 11:20 pm  Deixe um comentário  
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