Basílio da Gama

SONETO A UMA SENHORA QUE O AUTOR
CONHECEU NO RIO DE JANEIRO E VIU DEPOIS NA EUROPA

Na idade em que eu, brincando entre os pastores,
Andava pela mão e mal andava,
Uma ninfa comigo então brincava,
Da mesma idade e bela como as flores.

Eu com vê-la sentia mil ardores,
Ela punha-se a olhar e não falava;
Qualquer de nós podia ver que amava,
Mas quem sabia então que eram amores?

Mudar de sítio à ninfa já convinha,
Foi-se a outra ribeira; e eu naquela
Fiquei sentindo a dor que n’alma tinha.

Eu cada vez mais firme, ela mais bela;
Não se lembra ela já de que foi minha,
Eu ainda me lembro que sou dela!…

Basílio da Gama (1741-1795)
Nasceu em São João del’Rey, atual Tiradentes, Estado de Minas Gerais. Estudou com os jesuítas no Rio de Janeiro. Foi para a Itália, onde ingressou na Arcádia Romana e adotou o pseudônimo de Termindo Sipílio. Escapou a acusações de jesuitismo escrevendo um poema de louvor ao casamento da filha do todo-poderoso Marquês de Pombal. Publicou, em 1769, sua obra-prima, O Uraguay (poema épico).

Published in: on abril 15, 2009 at 6:25 am  Deixe um comentário  
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Francisca Júlia, poetisa parnasiana

OUTRA VIDA

Se o dia de hoje é igual ao dia que me espera
Depois, resta-me, entanto, o consolo incessante
De sentir, sob os pés, a cada passo adiante,
Que se muda o meu chão para o chão de outra esfera.

Eu não me esquivo à dor nem maldigo a severa
Lei que me condenou à tortura constante;
Porque em tudo adivinho a morte a todo instante,
Abro o seio, risonha, à mão que o dilacera.

No ambiente que me envolve há trevas do seu luto;
Na minha solidão a sua voz escuto,
E sinto, contra o meu, o seu hálito frio.

Morte, curta é a jornada e o meu fim está perto!
Feliz, contigo irei, sem olhar o deserto
Que deixo atrás de mim, vago, imenso, vazio…

Francisca Júlia (1874-1920)
Nasceu em Xiririca, hoje Eldorado, Estado de São Paulo. Pode-se dizer que Francisca Júlia conheceu a celebridade: Mármores (1895) foram lançados com prefácio encomiástico de João Ribeiro; Olavo Bilac elogiava-lhe a língua, o “português remoçado por um banho maravilhoso de novidade e frescura”; Vicente de Carvalho reputava-a “maravilhoso poeta, um dos mais originais do Brasil”, e assim por diante. Posteriormente sua fama declinou, a ponto de há algumas décadas Otto Maria Carpeuax declarar que a poetisa “não merece o esquecimento completo”. É considerada a maior poetisa parnasiana do Brasil. Publicou dois volumes de poesia: Mármores (1895); Esfinges (1903, 2ª edição 1921).

Published in: on abril 15, 2009 at 6:20 am  Deixe um comentário  
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Um soneto com tercetos à frente

GELO POLAR

Role do tempo na limosa penha
Um ano mais, e venha mais um ano,
Role este ainda, e mais uma outro venha…

Que importa! se no seio teu não medra
Desengano nenhum, nenhum engano,
Pois que ele abriga um coração de pedra.

A indiferença é tanta, é tanta a neve
Que no teu seio álgido se acama,
Do teu amor é tão gelada a chama,
Que a amar-te, estátua, já ninguém se atreve…

E se te desse o meu amor, em breve
Sei que se tornaria, altiva dama,
O meu amor, a minha ardente chama,
– Um urso branco uivando sobre a neve…

Venceslau de Queiroz (1865-1921)
Nasceu em Jundiaí, Estado de São Paulo. Fez o curso preparatório no Seminário de Caraça, em Minas Gerais, e depois seguiu a Faculdade de Direito de São Paulo. Exerceu o jornalismo, a magistratura e o magistério, tendo sido fundador e professor do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Fundador da Academia Paulista de Letras (cadeira nº 9). Obras poéticas: Goivos (1883); Versos (1890); Heróis (1898); Sob os olhos de Deus (1901); Rezas do Diabo (1939), póstumo.

Published in: on abril 15, 2009 at 6:17 am  Deixe um comentário  
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Um poema de Paulo Roberto do Carmo

ANDAR COM AS PALAVRAS

Andar com as palavras
é romper o ventre das horas:
em gotas de sangue dar-se à luz
ganhando caminho, para fora,
abrir o espaço, afrontando a solidão.

Andar com as palavras
é regressar à pátria de geografias futuras:
da árvore da alegria comer os frutos,
abrir suas peles de sonho, lambuzar-se nos sumos,
caminhar confiante rumo à aldeia dos homens.

Andar com as palavras
é cantar em si a mais alta febre do desejo
e cair e levantar sobre serpentes e culpas,
sempre para diante, sem trégua, com ufania,
e mesmo rastejar até que asas brotem dessa dor.

Paulo Roberto do Carmo nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em 1941. É poeta, professor e tradutor. Tem participado de diversas antologias coletivas no Brasil e em Portugal.
Recebeu o Prêmio Nacional de Poesia Alphonsus de Guimaraens, da Fundação Biblioteca Nacional, em 2000. Finalista do Prêmio Açorianos, cidade de Porto Alegre.
Diz o poeta: “Escrevo porque não posso esconder o sol dentro da alma, nem a palavra calada. Escrevo porque entre o homem que colhe e o que semeia, há um homem que sonha o peixe, o pão, o vinho, os alimentos coletivos da alegria, da liberdade, da justiça, a arte de tornar-se humano mudando não apenas a aldeia, mas a mim mesmo. Essa obsessão de libertar a alegria que se aprisiona dentro das palavras, é para aprender a exumar-me de minhas cotidianas mortes.”

Site pessoal:
http://www.paulorobertodocarmo.com/

António de Sousa Macedo

ULISSIPO

(Canto III)

Quando tinha no céu mais levantada
Apolo a luz, das metas mais distante,
E a terra com mais forças fulminada
Do arco de ouro e setas de diamante
A desembarcação já desejada
Conduz os seus o sábio navegante
Nos batéis entre si competidores
Em toldos ricos de diversas cores.

Chegam todos ao porto juntamente,
Que a competência a todos igualara;
Juntos saltam na areia, que já sente
O bem que o fado tanto dilatara.
Cada qual a saúda mais contente
Entre as que o gasto lágrimas brotara;
E querendo-a abraçar com brando efeito
Aos fortes braços acompanha o peito.

Decia ao mar Antelo acompanhado
De vários Lusitanos, moradores
Em povoações vizinhas, cujo agrado
Assegurava os Gregos de temores.
Os braços dava, em seu amor fiado,
Ulisses aos humildes e aos maiores,
E de Antelo guiado sobre a serra.
Com poucos seus a descobrir a terra,

O sítio notam e o Zeni luzente
Quase em meio da zona temperada,
Vizinho com distancia conveniente
Da linha com que a esfera é demarcada.
Os influxos gozando felizmente
Do signo que primeiro tem morada
No Zodíaco largo, com que espera
Gozar inalterável Primavera.

Era do ano a estação florida
Cadente já, que mais os céus serena,
Quando a terceira casa ao sol convida
Dos géminos irmãos da bela Helena;
Quando das flores à caduca vida
O rigor de seus raios morte ordena,
E os Gregos viam, entre fruito e flores,
Os tempos quase iguais competidores.

Vêm coroado o campo do copioso
Fruito que Ceres liberal reparte,
E em flor o que a Lieu faz mais glorioso
Que os insignes troféus que lhe deu Marte.
O licor de Minerva misterioso
Fértil a terra cria em qualquer parte,
Cifrando assim fecunda natureza
Em breve mapa a grande redondeza.

1-6

António de Sousa Macedo (1606-1682)
Nasceu no Porto e faleceu em Lisboa. Era de família nobre entroncada nos Braganças. Licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Foi diretor de um dos primeiros jornais portugueses, Mercúrio Português, publicado mensalmente em Lisboa (1663-1666). Escreveu obras em português, castelhano e latim.

Published in: on abril 15, 2009 at 5:58 am  Deixe um comentário  
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Um poeta madeirense

AINDA NÃO CONSTRUÍ O BARCO

Não construí ainda o barco negro
para atravessar o mar dos peixes azuis
quando chegar a hora.

Confesso que vai para além do adro
da minha igreja preferida
o tamanho do cais em que prevejo
partir um dia.

Irei trazer as melhores madeiras
antigas, umas velas de tecido forte
com a Cruz de Cristo pintada ao centro,
umas cordas experimentadas pelas velhas
travessias atlânticas e os mapas
de Colombo que Zarco usou antes,
para estudar todas as rotas possíveis.

Ainda não construí o barco.
Apenas sei que partirei um dia
ao encontro do outro lado do mundo
onde acabam de vez os oceanos.

Espera-me o lugar onde descansam
as almas e que os homens temem,
como já vi escrito em tantos livros.
Eu confesso que não me mete medo
o destino. Apenas sei que partirei
um dia e tenho medo da viagem.

Por isso abraça-me, meu amor,
a noite está a chegar ao telhado
da nossa casa e pode ser hoje
o dia escolhido para a partida.

José António Gonçalves (nascido e falecido no Funchal, Ilha da Madeira, Portugal, 1954-2005). Jornalista profissional, revelou-se como autor em “O Poeta Faz-se aos Dez Anos”, de Maria Alberta Menéres (1973). Colaborador literário da imprensa, rádio, televisão (o seu tele-dramático “Ora… O Mar”, conquistou, para a RTP-M, o Prémio «Açor de Bronze», no MAT-Festival Internacional de Televisão, Horta, Açores, 1988), escrevendo ainda para o cinema (documentários) e teatro. Está traduzido para algumas línguas, entre as quais o italiano e o russo e integrado em antologias nacionais e estrangeiras. Foi co-fundador e presidente da Direcção da Associação de Escritores da Madeira (AEM) e pertenceu aos quadros directivos da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Recebeu por duas vezes o Galardão de Mérito Cultural da Região Autónoma da Madeira (1989 e 1994), tendo sido promotor e organizador de diversas iniciativas. Dirigiu os suplementos literários “Página 2000” (“Jornal da Madeira”) e “Cultura” (“Notícias da Madeira”) e coordenou “O Marcador” no semanário “Areópago”. Foi agraciado, a título póstumo, com a comenda da Ordem do Infante Dom Henrique, a 10 de Junho de 2005.

Published in: on abril 15, 2009 at 5:51 am  Deixe um comentário  
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Luís Delfino, poeta catarinense

A PRIMEIRA LÁGRIMA

Quando a primeira lágrima, caindo,
Pisou a face da mulher primeira,
O rosto dela assim ficou tão lindo,
E Adão beijou-a de uma tal maneira,

Que Anjos e tronos pelo espaço infindo,
Qual rompe a catadupa prisioneira,
As seis asas de azul e d’ouro abrindo,
Rolaram numa esplêndida carreira.

Alguns, poisando à próxima montanha,
Queriam ver de perto os condenados,
Da dor fazendo uma alegria estranha.

E ante o rumor os ósculos dobrados,
Todos queriam punição tamanha,
Ansiosos, mudos, trêmulos, pasmados…

Luís Delfino dos Santos nasceu a 25 de agosto de 1834, na cidade de Desterro, hoje Florianópolis, SC. Aos 16 anos, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde ingressou na Faculdade de Medicina, na qual se graduou em 1857. É eleito senador por Santa Catarina, em 1891, para a Constituinte Republicana. Desde jovem escreveu poemas. Integrou o movimento abolicionista tendo vários poemas dedicados à valorização do escravo como pessoa humana. Não publicou nenhum livro, sua vasta produção literária ficou dispersa em jornais e revistas. Faleceu no Rio a 31 de janeiro de 1910. Seu filho Tomaz Delfino dos Santos publicou postumamente 14 volumes de seus poemas.

Published in: on abril 15, 2009 at 5:44 am  Deixe um comentário  
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Um poema sobre a cidade de Porto Alegre

PORTO ALEGRE

(ao Menino Deus)

Porto no qual entrego meu andar diário.
Alegre, distraído, como chuva perdida de primavera!
Ruas do meu bairro onde me perco, menino,
Entre palmeiras sem beira de praia:
A praia é das Belas de Deus!
Maresia é riosia.
Ventos gelados e cortantes do inverno
Em verdes esquinas como cataventos a me perpassar!
Porto onde naufrago meu olhar.
Por-de-sol na praça da minha rua,
Nas esquinas encantadas repletas de sabiás e bem-te-vis.
Suaves passos das musas incendiárias do pobre coração!
Porto das mudanças de endereços e estados de alma.
Porto sem amarras,
Águas tranquilas de minha rua onde entrego meu andar diário.

Paulo Monti é natural de Itaqui-RS e reside em Porto Alegre, RS. Participou de concursos no ‘Centro de Estudios Poéticos’, Madrid – Espanha. Obteve Menção Honrosa no “Concurso Internacional de Poesia Livre ‘Sol Vermelho’ – Prêmio Celito Medeiros 2004”, vindo a participar da antologia impressa promovida pelo concurso.
Também participa da ‘Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos 12’, da Câmara Brasileira de Jovens Escritores, primeira edição, novembro de 2004.

Site próprio com poesias inéditas, intitulado ‘Poesias by P@ulo Monti’ em:
http://geocities.yahoo.com.br/poeta_2002br/index.htm
Editor e Diretor da Revista Literária Paralelo 30, em:
http://geocities.yahoo.com.br/paralelo_30/index.htm

Published in: on abril 15, 2009 at 5:20 am  Deixe um comentário  
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Poema de Floreny Ribeiro dedicado a Mario Quintana

RUA DOS CATAVENTOS

a Mario Quintana

Naquela ruazinha
em dias de vento
saias rodadas
bailam como cataventos.
Alguém passa, pára e olha…
E ali fica, muito atento
saboreando tudo
sem se importar com o vento.
Ele é poeta… vagaroso é o tempo…
E aquela ruazinha
de ondulantes ventos
é sua amada, sua namorada
a sua Rua dos Cataventos!

Floreny Ribeiro nasceu em Pelotas, Rio Grande do Sul. Professora de música, licenciada pelo Instituto de Artes da UFRGS, lecionou em várias escolas da rede Estadual e particular. Pertence à Casa do Poeta Latino-Americano e ao PARTENON LITERÁRIO. Funcionária da Casa de Cultura Mario Quintana desde 1994, tem como sua responsabilidade a coordenação do Acervo Mario Quintana.

Published in: on abril 15, 2009 at 5:08 am  Deixe um comentário  

“Espera sensual”, do poeta equatoriano Simón Zavala Guzmán

ESPERA SENSUAL

Porém agora é de noite.
Quantas vezes se cansa tua
Inegável presença
Lutando humanamente sobre a minha
pele, que sua?

Escorregas em minhas mãos
de ourives taciturno,
modelador de sonhos inconclusos,

como esta mesma noite que
é um fio
rugindo entre as horas
até cortar a interminável
espera.

Só sei, que em tua partida
de onda tempestuosa
há um mar cósmico
refletindo tua essência
e eu, sou um penhasco,
que rompe na intempérie
tua lúbrica cortiça.

(Tradução de Nina Reis, escritora brasileira)

Simón Zavala Guzmán
Nasceu em Guayaquil, Equador. Licenciado en Ciências Públicas e Sociais. Doutor em Jurisprudência e Advogado. Tem publicado em jornais e revistas, ensaios e artigos literários, jurídicos, políticos e poemas.

Conheça sua página na internet: http://www.oplibros.com/simonzavalaguzman.html

Published in: on abril 9, 2009 at 11:43 pm  Deixe um comentário  
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