O SONHO DOS SONHOS *

Quanto mais lanço as vistas ao passado,
Mais sinto ter passado distrahido,
Por tanto bem – tão mal comprehendido,
Por tanto mal – tão bem recompensado!…

Em vão relanço o meu olhar cançado
Pelo sombrio espaço percorrido:
Andei tanto – em tão pouco… e já perdido
Vejo tudo o que vi, sem ter olhado!

E assim prosigo, sempre audaz e errante,
Vendo, o que mais procuro, mais distante,
Sem ter nada – de tudo que já tive…

Quanto mais lanço as vistas ao passado,
Mais julgo a vida – o sonho mal sonhado
De quem nem sonha que a sonhar se vive!…

MÚCIO TEIXEIRA (1857-1926)
Escritor, jornalista, diplomata e poeta brasileiro. Nasceu em Porto Alegre, no Estado do Rio Grande do Sul. Foi aluno do Colégio Gomes, em Porto Alegre e um dos fundadores da Sociedade Partenon Literário, em 1868. Era cônsul do Brasil na Venezuela em 1889, quando da Proclamação da República. Em 1896 mudou-se para a Bahia, onde tornou-se amigo da família de Castro Alves. Em 1899 passou a residir no Rio de Janeiro com a esposa e seus seis filhos. Ao saber da morte de Vitor Hugo, organizou uma obra em sua homenagem, a Hugonianas, coleção de alguns de seus poemas traduzidos para a língua portuguesa. É patrono de uma das cadeiras da Academia Rio-Grandense de Letras e da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras. Foi um dos autores mais prolíficos de seu tempo, escrevendo mais de setenta obras, entre ensaios, romances, dramas e biografias.

*Foi mantida a ortografia do livro “Sonetos brasileiros – séc. XVII-XX”, de Laudelino Freire, publicado no Rio de Janeiro por volta de 1914.

SONETO

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

LUÍS VAZ DE CAMÕES (1524 ou 1525-1580)
1524 ou 1525: Datas prováveis do nascimento de Luís Vaz de Camões, talvez em Lisboa, Portugal.
1548: Desterro no Ribatejo; alista-se no Ultramar.
1549: Embarca para Ceuta; perde o olho direito numa escaramuça contra os Mouros.
1551: Regressa a Lisboa.
1552: Numa briga, fere um funcionário da Cavalariça Real e é preso.
1553: É libertado; embarca para o Oriente.
1554: Parte de Goa em perseguição a navios mercantes mouros, sob o comando de Fernando de Meneses.
1556: É nomeado provedor-mor em Macau; naufraga nas Costas do Camboja.
1562: É preso por dívidas não pagas; é libertado pelo vice-rei Conde de Redondo e distinguido seu protegido.
1567: Segue para Moçambique.
1570: Regressa a Lisboa na nau Santa Clara.
1572: Sai a primeira edição d’Os Lusíadas.
1580: Morre de peste, em Lisboa.

SONETO

Leandro em noite escura ia rompendo
As altas ondas, delas rodeado
No meio do Helesponto, já cansado,
E o fogo já na torre morto vendo;

E vendo cada vez ir mais crescendo
O bravo vento, e o mar mais levantado;
De suas forças já desconfiado,
Os rogos quis provar, não lhe valendo.

“Ai ondas!” (suspirando começou):
mas delas, sem lhe mais alento dar,
a fala contrastada, atrás tornou.

“Ai ondas!” (outra vez diz) vento, mar,
Não me afogueis, vos rogo, enquanto vou;
Afogai-me depois quando tornar”.

DIOGO BERNARDES (1520-1605)
Nasceu em Ponte do Lima, Portugal. Tendo acompanhado el-rei D. Sebastião a África, como cantor oficial da expedição, por ocasião do desbaratamento do exército português, ficou cativo dos mouros, pelo espaço de cinco anos. Escreveu: O Lima, que contém as suas éclogas e cartas; Várias rimas ao bom Jesus, poesias de caráter religioso; e Flores do Lima, onde se encontram os seus sonetos, canções, elegias e cantigas.

Um soneto de José da Natividade Saldanha

A SUA CONDENAÇÃO À MORTE

Em vão pretendes, monstro sanguinoso,
Sobre mim desfechar teu golpe injusto:
Fui condenado à morte?… não me assusto;
Não me acobarda* teu decreto iroso.

Sim, a pátria perdi, fui desditoso,
Mas vivo sob as leis de um povo augusto,
E o rei dos orbes poderoso e justo
Não tardará de ouvir meu som queixoso.

Une os escravos, que o Brasil encerra,
Invoca as fúrias do tremendo Averno**,
Desfaz-te mesmo enfim, nada me aterra.

Há de ser contra ti meu ódio eterno,
E hei de, enquanto viver, fazer-te guerra,
Na terra, e mar, e céu, e mesmo inferno.

* Acobarda: acovarda.
** Averno: Inferno.

José da Natividade Saldanha (1795-1832)
Nasceu no Recife, Estado de Pernambuco. Depois dos estudos secundários em Olinda, seguiu para Coimbra (Portugal), a estudar Direito, formando-se em 1823. De regresso ao Brasil, envolveu-se no movimento da Confederação do Equador; depois de breve estada nos Estados Unidos, refugiou-se em Bogotá (Colômbia), vivendo da advocacia e do magistério, onde faleceu. Obras poéticas: Poesias oferecidas aos amantes do Brasil (1822); Poesias (1875).

Published in: on abril 15, 2009 at 6:49 am  Deixe um comentário  
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Um soneto com tercetos à frente

GELO POLAR

Role do tempo na limosa penha
Um ano mais, e venha mais um ano,
Role este ainda, e mais uma outro venha…

Que importa! se no seio teu não medra
Desengano nenhum, nenhum engano,
Pois que ele abriga um coração de pedra.

A indiferença é tanta, é tanta a neve
Que no teu seio álgido se acama,
Do teu amor é tão gelada a chama,
Que a amar-te, estátua, já ninguém se atreve…

E se te desse o meu amor, em breve
Sei que se tornaria, altiva dama,
O meu amor, a minha ardente chama,
– Um urso branco uivando sobre a neve…

Venceslau de Queiroz (1865-1921)
Nasceu em Jundiaí, Estado de São Paulo. Fez o curso preparatório no Seminário de Caraça, em Minas Gerais, e depois seguiu a Faculdade de Direito de São Paulo. Exerceu o jornalismo, a magistratura e o magistério, tendo sido fundador e professor do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Fundador da Academia Paulista de Letras (cadeira nº 9). Obras poéticas: Goivos (1883); Versos (1890); Heróis (1898); Sob os olhos de Deus (1901); Rezas do Diabo (1939), póstumo.

Published in: on abril 15, 2009 at 6:17 am  Deixe um comentário  
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Poema de Félix da Cunha

SONETO
Félix da Cunha (1833-1865). Nasceu em Porto Alegre. Poeta romântico.

Nas veias já me corre o frio da morte.
Meus olhos sem fulgor fecham-se à luz,
Nas trevas do meu leito não transluz
Meigo raio de amor que me conforte.

Além, diviso a fúnebre coorte,
Que ao cemitério o meu caixão conduz;
Ninguém pranteará nessa erma cruz,
Dos anos meus o prematuro corte.

E mais que o nada a idéia me atormenta,
De que ela não virá no frio lajedo,
Regar de pranto minha cruz sangrenta.

Morra embora comigo o meu segredo,
Nunca ela saberá que dor violenta,
De minh’alma a prisão quebrou tão cedo.

…………….

Published in: on abril 7, 2009 at 7:03 am  Deixe um comentário  
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