Poema de Ernesto Silva

ESCUTA

Ernesto Silva (1855-1909). Nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Poeta, teatrólogo e farmacêutico. Um dos fundadores da Academia Rio-Grandense de Letras, em 1901.

Escuta, Eulina, vem cismar comigo
A tarde é linda nos vergéis do sul.
Não vês?… suspira o gaturamo alegre
no prado brinca a borboleta azul.

Escuta, Eulina, vem cismar comigo
Reclina a fronte no meu peito… assim…
Ali – floresce o jasmineiro, a rosa,
Aqui – dormita o meu amor sem fim.

Escuta, Eulina, vem cismar comigo
Lá surge a lua com gentil palor.
Beijando as nuvens no cendal de prata
Cintila a estrela com sorrir de amor.

Escuta, Eulina, vem cismar comigo
A vaga ondula nos parcéis do mar
A brisa corre na solidão do bosque
Levando as folhas no veloz passar.

Escuta, Eulina, vem cismar comigo
Minh’alma chora a rua ausência aqui;
Ai! não demores que esta vida é breve
E a minha espr’ança se resume em ti!

Escuta, Eulina, vem cismar comigo,
Desponta a aurora no infinito azul
A minha sombra te beijando o rosto
corramos juntos os vergéis do sul!

Published in: on abril 7, 2009 at 7:14 am  Deixe um comentário  
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Poema de Damasceno Vieira

A VELHA IDEIA

Damasceno Vieira (1850-1910). Nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.

Eu ia caminhando a passos lentos
Sobre a arenosa costa do oceano,
Ouvindo o murmurar profundo, insano
Das ondas em frenéticos lamentos.

E vi, na brava luta dos elementos,
As brancas flores do agitado arcano
– as espumas – com gesto soberano
Querer vencer da vaga os movimentos.

Mas, belas como a luz, as orgulhosas
Morriam sobre a praia… Ó velha ideia,
Debalde impões-te às massas vigorosas!

És como espuma inútil que se alteia
Sobre o dorso das vagas revoltosas:
– não deixas traço na deserta areia!

Published in: on abril 7, 2009 at 7:08 am  Deixe um comentário  
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Poema de Félix da Cunha

SONETO
Félix da Cunha (1833-1865). Nasceu em Porto Alegre. Poeta romântico.

Nas veias já me corre o frio da morte.
Meus olhos sem fulgor fecham-se à luz,
Nas trevas do meu leito não transluz
Meigo raio de amor que me conforte.

Além, diviso a fúnebre coorte,
Que ao cemitério o meu caixão conduz;
Ninguém pranteará nessa erma cruz,
Dos anos meus o prematuro corte.

E mais que o nada a idéia me atormenta,
De que ela não virá no frio lajedo,
Regar de pranto minha cruz sangrenta.

Morra embora comigo o meu segredo,
Nunca ela saberá que dor violenta,
De minh’alma a prisão quebrou tão cedo.

…………….

Published in: on abril 7, 2009 at 7:03 am  Deixe um comentário  
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