VERITAS

Finalmente,
eu entendi.
Acho que sim.

Tem o outro lado da mesma coisa.
Tem o arremedo, o simulacro,
eu preciso acreditar em alguma coisa.

Fé, eu não tenho. Não vou negar nada,
Deus existe para muitos, não para todos.
Não há espaço para todo mundo, alguém
vai ter que
As chances são mínimas, cada vez menores,
a não ser que
ou

Às vezes enxergo o outro lado, mas não
existe o outro lado. C´est la même chose.
Eu já vi este videoclip, é padrão, já
decorei . É melhor assim. Tanto faz.
A democracia é um privilégio de poucos.

A fruta é tua, mas não existe fruta, não mais.
Nem mesmo a colheita, pois ninguém plantou.
Acredito, sim, nos valores humanos, vale a pena.
Questão de opinião, de

Se é democracia, alguém nos representa. Eu, tu, nós.
Os ladrões têm seus representantes, existem
os desenganados, os bem-aventurados. Os canalhas, os dóceis, os.
Estamos bem representados, as instituições são sólidas, ão, as.
As leis são para serem respeitadas, respeito é bom e eu mereço,
minha mãe respeitava os mandamentos, eu sou mandado.

Acho que, finalmente, eu entendi.

ANTONIO MIRANDA (1940)
Nasceu no Maranhão, Brasil. Poeta, novelista, professor universitário (Universidade de Brasilia) e atualmente diretor da Biblioteca Nacional de Brasilia. É autor de mais de trinta livros, a maioria de poemas, sendo o mais conhecido, com 12 edições, o TU PAÍS ESTÁ FELIZ, com os textos de um espetáculo que montou em Caracas, Venezuela, nos anos 1971, 1984 e 2007 com o grupo teatral RAJATABLA.
Página do autor: http://www.antoniomiranda.com.br

SAUDADES NO PORVIR

Eu vou com a noite
Pálida e fria
Na penedia
Me debruçar:
O promontório
De negro dorso,
Qual nau de corso
Se alonga ao mar.

Dormem as horas,
A flor somente
Respira e sente
Na solidão;
A flor das rochas,
Franzina e leve,
Ao sopro breve
Da viração.

Cantando o nauta
Desdobra as velas
Argênteas, belas
Asas do mar;
Branqueia a proa
Partindo as vagas,
Que n’outras plagas
Se vão quebrar.

Eu ponho os olhos
No firmamento:
Que isolamento,
Oh, minha irmã!
Apenas o astro
Que a luz duvida,
Promete a vida
Para amanhã.

Naquela nuvem
Te vejo morta;
Meu peito corta
Cruel sentir
Da lua o túmulo
Na onda ondula,
E o mar modula
Como um porvir…

SOUSÂNDRADE (1933-1902)
Sousândrade, nome literário de Joaquim de Sousa Andrade, nascido na vila de Guimarães, no Maranhão, Brasil. Formou-se em Letras pela Sorbonne, em Paris, onde fez também o curso de engenharia de minas. Republicano convicto e militante, transfere-se, em 1870, para os Estados Unidos. Morando em Nova Iorque, funda o periódico republicano “O Novo Mundo”, publicado em português. Em Nova Iorque, publica sua maior obra, o poema longo O Guesa Errante (1874/77). Retornando ao Maranhão, comemora com entusiasmo a Proclamação de República. Dedica-se ao ensino de Língua Grega no Liceu Maranhense e passa, no final da vida, por enormes dificuldades financeiras.

ENQUANTO EXISTO, RESISTO

para Inês Sarmet

Aves migratórias,
nuvens errantes,
pensamentos vadios.

Flores nascem e fenecem
e amores padecem
na separação.

Estou só e a cama
é tanto maior
na desolação.

Entretanto, durmo
e sonho e amanheço,
não desisto

e recomeço.

ANTONIO MIRANDA (1940) – Nasceu no Estado do Maranhão, Brasil. É poeta, novelista, professor universitário (Universidade de Brasilia) e atualmente diretor da Biblioteca Nacional de Brasilia. Membro da Academia de Letras do Distrito Federal. É autor de mais de trinta livros, a maioria de poemas, sendo o mais conhecido, com 12 edições, o TU PAÍS ESTÁ FELIZ, com os textos de um espetáculo que montou em Caracas, Venezuela, nos anos 1971, 1984 e 2007 com o grupo teatral RAJATABLA.
Página do autor: http://www.antoniomiranda.com.br

Vespasiano Ramos

ÂNSIA MALDITA

Ninguém mais do que tu saberá quanto
Padeço, agora! e, em lágrima, advinha
A minh’alma apagar-se, neste pranto,

Beatriz! Alma em flor! Suave encanto,
Que me salvar, pensei, dos altos, vinha:
O quanto peno, o quanto sofro, enquanto
Imagino que nunca serás minha!

Foram, por ti, as lágrimas que os olhos
Meus derramaram! só por ti, somente
Que minh’alma, do Amor contra os escolhos,

Há de, convulsa, soluçar, um dia,
A derradeira lágrima pungente
E o derradeiro grito de agonia!

Vespasiano Ramos (1884-1916)
Nasceu em Caxias, Estado do Maranhão. Desde cedo começou a trabalhar no comércio local, no entanto buscando sempre o saber tornou-se um viajante compulsivo. Durante a sua vida viajou por quase toda a região Norte e também o Sul do Brasil. Passou seus últimos dias na então vila de Porto Velho, Comarca de Humaytta, Estado do Amazonas, hoje município de Porto Velho, capital do Estado de Rondônia. Publicou sua obra poética em diversos jornais e revistas. É considerado o precursor da literatura em Rondônia. Em sua homenagem foi contruído um grande centro recreativo, em Rondônia, e no Maranhão, uma das mais belas praças da capital recebeu o seu nome. É patrono da cadeira n° 32 da Academia Maranhense e também da cadeira n° 40 da Academia Paraense de Letras.

Published in: on abril 9, 2009 at 11:24 pm  Deixe um comentário  
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