UM POEMA TRILÍNGUE DE ÉLVIO VARGAS

ALEGRETE

A cidade que herdei
tem rebanhos de pedra
semoventes de sombras
e um cavalo de tróia.
Negrinhos, salamandras e pastoreios
perseguidos por um rio
atiçado de vertentes
na misteriosa profecia
de suas águas
Ilhargas, hortos e casarios
quinchados de sóis poentes
Cartuns, Cartago
músicas que jamais acabam
enfeitiçando o mágico festim
dos meus brinquedos
Igrejas de torres afiadas
num céu azulado de sonho
vigiado a distância
por uma minúscula
lua de marfim.
Batizei de Alegrete
os reinos silenciosos
da cidade que inventei…

ALEGRETE

La ciudad que heredé
tiene rebanõs de piedra
semovientes de sombras
un caballo de troya.
Negritos, salamandras y pastoreos
perseguidos por un rio
atizado de vertientes
en la misteriosa profecía
de sus aguas.
Ijadas, huertos y caseríos
quinchados de sol poniente.
Cartuns, Cartago
músicas que nunca acabam
hechizando el mágico festín
de mis juguetes.
Iglesias de torres afiladas
en un cielo azulado de sueño
vigilado a la distancia
por una minúscula
luna de marfil. Bauticé de Alegrete
los reinos silenciosos
de la ciudad que inventé…

ALEGRETE

The city I inherited
has stone herds of
moving shadows
and a horse of Troy.
Black boys, salamanders
and pastures
chased by a river
stirred up by streams
in the mysterious prophecy
of its waters.
Flanks, garden and rows of houses
thatched by setting suns.
Cartuns, Cartaghe
endless songs
charming the magic feast
of my playthings.
Churches with sharp towers
against the blue of a dream sky
watched at a distance by a minuscule
ivory monn.
I batpized Alegrete
the silente kingdoms
of the city I invented…

ÉLVIO VARGAS (1951)
Nasceu em Alegrete, Rio Grande do Sul, Brasil. Escreve desde os anos sessenta, tendo publicado o seu primeiro poema em Setembro de 1969, no jornal Gazeta de Alegrete. Em 1995, dirige e edita o projeto literário A palavra escrita em Alegrete 1845-1995, retrospectiva dos 150 anos da literatura alegretense. Em 2007, é escolhido o Patrono da Feira do Livro da sua cidade natal. Publicou: O almanaque das estações (1993); Água do sonho (2006); Esparsos vargaslumes (2007).

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VOZES DA BRUMA NOS CÓDIGOS POÉTICOS, ensaio de Élvio Vargas

“ De vozes sim, e aqui, onde o vento era escasso, ouviam-se melhor. Ficavam dentro da gente, pesadas. Lembrei-me do que dissera minha mãe: “ Lá você vai ouvir melhor. Estarei mais perto. Vai achar a voz das minhas recordações mais próxima que a da minha morte, se é que algum dia a morte teve voz “ 1

Perambula pela linguagem uma freqüência fantasma, uma porta sensorial onde todas as personagens transitam, independente da conspiração escritural que as convocou. Muitas chegam com as chagas dos séculos, outras surgem embrionárias. Algumas inflamadas, obsessivas, não sei se demoníacas ou celestiais, interferem e nos abduzem – através delas mergulhamos no ponto do abismo. Somos o epicentro atormentado de nossos poemas, e nos reservamos ao trágico direito de nosso próprio seqüestro, gravando no proscênio mágico das páginas, um aroma de intensa volúpia, que muitas vezes surpreende, enternece e até amedronta leitores descontraídos, com seus diálogos de mistérios, abandonos e agonias.Inevitavelmente, nossas vidas são dragadas para o pulsar cardíaco de uma grande trama, que só contempla os entes mais inquietos de uma bela e dramática ficção, justamente nesta fração de segundos , em que a poética por osmose invade o ficcional e remete-nos para a condição de uma terceira pessoa. Para isto, conquistamos o inédito ofício de nos traduzirmos de uma densa matéria, para assumirmos as falas ventríloquas emitidas pelos roteiros que a eternidade nos impôs, o que nos torna imortais atores de nossa mitologia pessoal ou insólitos personagens criados pela nossa urgente e imprevisível dramaturgia.

“ Senti que o povoado vivia…” 2

No dia 18 de abril de 1842, nascia em Ponta Delgada, nos Açores, o poeta Antero Tarquínio de Quental. Em 1865, perto da cidade de Coimbra, presidiu “A Sociedade do Raio”, uma estranha entidade metafísica, que abrigava sua sessões, bem no meio de um vilarejo , numa delas, ouviu-se de longe, o cadenciado trote de um alazão.

“ É o cavalo de Miguel Páramo, que está galopando a caminho de Media Luna.” 3
“Esse negro galope, cujas passadas
escuto em sonhos, quando a sombra desce,
e, passando a galope, me aparece
da noite nas fantásticas estradas,
Donde vem ele? que regiões sagradas
e terríveis cruzou, que assim parece
tenebroso e sublime, e lhe estremece
não sei que horror nas crinas agitadas?
Um cavaleiro de expressão potente,
formidável, mas plácido, no porte,
vestido de armadura reluzente,
Cavalga a fera estranha sem temor:
e o corcel negro diz: “ Eu sou a morte!
-Responde o cavaleiro: Eu sou o Amor! “4

Neste soneto soçobram as trevas fundantes do “ Corvo”, de Edgar Alan Poe”. Aqui -ainda Tarquínio – sente com fugacidade os espectros que rondam-no. Uma brisa fria adverte-lhe, bruxuleando a esguia chama da vela que lividamente ilumina suas opacas folhas. No pé direito da parede, todo o espiral projetado pela minguada luz, desenha um pajem negro oferecendo as últimas tâmaras para Cleópatra. Na noite de 11 de setembro de 1865, cede para as sedições de suas sombras e conquista seu próprio galope para a eternidade.

Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa no dia 19 de maio de 1890. Com apenas dois anos de idade perde sua mãe. Em 1911, matricula-se na Faculdade de Direito de Coimbra, e no ano seguinte, vai estudar em Paris. Lá começa a corresponder-se com Fernando Pessoa. Durante as epístolas, estranhas vozes guiam sua mão trêmula, escrevendo versos encharcados de um póstumo desejo, com opiários de incensos, entorpecidos no fado de uma esperança contaminada pelas pálidas horas do fim.

Excertos de um soneto de Mário de Sá Carneiro.

(…) Num ímpeto de difuso quebranto
tudo encetei e nada possuí.
Hoje de mim, só resta o desencanto
das coisas que beijei mas não vivi. 5

Trecho da última carta, escrita para Fernando Pessoa, no dia 04 de abril de 1916, vinte e dois dias antes do seu desaparecimento. Toda a correspondência entre eles, gerou 217 cartas.

“ Meu querido Amigo,
(…) Neste enredo formidável de coisas trágicas e até picarescas, não sei desvencilhar-me para lhe fixar certos detalhes.

(…) Assim ontem de manhã deixei a personagem feminina destes sarrilhos a dormir, bem certa de que pelo meio-dia regressaria a casa com mil francos. Saí para escrever um pneumático longuíssimo onde contava tudo e anunciava meu suicídio às duas e meia na estação de Pigalle ( Nord- Sur) . E que lhe deixaria o meu “stylo” na caixa de certo café, como última recordação. Efectivamente preparei tudo para a minha morte. Escrevi-lhe uma última carta, a você, outra a meu Pai- e a ela outro pneumático.

“ (…) Ria-se: mas no fundo tenha muita pena, muita do seu, seu

Mário de Sá-Carneiro

Escreva imediatamente! Escreva “. 6

Vinte dias antes em Lisboa, devidamente carimbadas e classificadas, saíram todas as cartas expedidas até aquela data. O pequeno caminhão partira um pouco mais cedo, para vencer as lombadas que separavam a esquina cinza da companhia Reuters até a zona portuária. Os eixos ressequidos rangiam, doídos pelo fardo monumental das palavras. Com o mesmo planejamento e intensidade zarpava de Paris outro comboio, carregado de sinistras estrofes. Os cavalos a vapor pastavam quietos entre o rumino de suas máquinas. As cartas nunca se cruzaram – só nos resta rompermos o lacre da última e sorrateiramente decifrá-la. Outrar-se, com incorrigível supremacia , era a maior arte do seu signatário. Desmontar realidades num domicílio onírico e reedificá-las noutros, eram partes inseparáveis de sua prestidigitação psíquica. Migrar de uma dimensão para outros espaços plasmados em substância e éter, davam-lhe a sucção anímica do ortônimo sobre os heterônimos, sugando-lhes e sendo sugado, num transe de endovenosa emoção, oxigenando sonhos e pesadelos, no gozo alucinado das essências e dos conflitos onde Fernando hospeda suas várias Pessoas…tantas, que ao voltar de sua projeciologia mediúnica, nunca mais pôde acessar-se como criador e diluiu-se entre as suas criaturas.
“ Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental- uma ânsia aflita de falar consigo. Como daqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe . Só isto- que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim.

Estou num daqueles dias que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá, e esta é a razão íntima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.

(…) Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera e que as coisas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que me sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena- chia de aqui e agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas. (…) Pode ser que, se não deitar hoje esta carta no correio, amanhã, relendo-a , me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no “ Livro do Desassossego”. Mas isto nada roubará a sinceridade com que a escrevo, nem a dolorosa inevitabilidade com que a sinto.

(…) Isto não é bem loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferente destes.

De que cor será sentir?

Milhares de abraços do seu, sempre muito seu,

Fernando Pessoa

P.S- Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente a copiarei amanhã, antes de lhe mandar.Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histero-neurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si próprio que dele são tão características…

Você acha-me razão, não é verdade? “ 7

Florbela (d”Alma da Conceição) Espanca, nasceu em Vila Viçosa, no Alentejo, a 8 de dezembro de 1894. Freqüentou o curso primário em Vila Viçosa e o secundário em Évora. Casa-se em 1913,indo morar em Redondo, volta para Évora e conclui o Curso Complementar de Letras em 1917. Neste mesmo ano, matricula-se no curso de Direito na Universidade de Lisboa e abandona-o em 1920. Nos anos seguintes, depressiva, entre novos casamentos, separações e litígios internos, alcança o ano de 1927, quando seu irmão perde a vida num acidente aéreo. Logo após, com a disciplinada solidão de Penélope, fia seus versos de dia e desfia-os à noite, e rompe seu acordo de existência, no dia do seu aniversário, em 1930.Está entre os novelos…
Errante

“(…) Meu coração da cor dos rubros vinhos
rasga a mortalha do meu peito brando
e vai fugindo, e tonto vai andando
a perder-se na bruma dos caminhos.
(…) Eu tecerei uns sonhos irreais
como essa mãe que viu partir o filho
como esse filho que não voltou mais!” 8

Flor bela de almas e Conceição, espanca todas as ervas daninhas, pequenos talos e ramos que não dizem respeito aos seus domingos. Vestida com seu manto de crisântemos, e com a pele lunar de suas magnólias brancas, ascende, levitando sobre círios e açucenas, um buquê de cálidas fragrâncias, para os reinos líricos do seu Alentejo.

“(…)Maiakoviski deixou uma autobiografia, iniciada em 1922 e completada, com mais alguns dados informativos, em 1928.EU SOU UM POETA , diz ele no princípio. Nasceu em 7 de julho de 1894 e passou a infância na aldeia de Bagdadi, nos arredores de Kutaíssi, na Georgia. Em 1900, andando a cavalo com seu pai, à noite, pela floresta, cercado pela névoa, esbarrou num galho com espinhos, subitamente a névoa se desfez, uma luz mais clara apareceu no céu, era a eletricidade. O menino poeta Maiakoviski brada: Depois de conhecer este clarão, a natureza para mim, não tem mais interesse, não é bastante perfeita!!! Dali em diante ,ele seria o poeta das coisas novas, da ciência e da técnica, contrariando todos os cânones da tradição russa, seria o poeta da cidade.

(…)Me deixa urrar meu último grito
toda a amargura das queixas ofendidas.
(…) O dia que eu vim entre vocês
foi absolutamente
desesperadamente igual aos outros.
(…) Quem já me beijou
pode dizer
se existe bebida mais doce que a minha saliva.
(…) Sobre mim correm
e me banham com as carícias
os mares da eternidade.
(…) Debaixo de mim
o mundo
e suas milhares de igrejas
já entoaram meu réquiem.

(Breviário sobre o fim- No dia 08 de abril, Vladimir Maiakoviski assiste o extraordinário, lírico e poético flime “ A Terra” de Dovtchenko.Na manhã seguinte realizou uma conferência e debateu com estudantes.No dia 11, discutiu sobre projetos e direitos autorais do escritor russo. Para o dia 13, planejava uma viagem à Leningrado, em companhia de outros intelectuais.No dia 14 de abril de 1930, desapareceu com uma bala de revólver, disparada na cabeça. Imediatamente o secretário geral do partido emitiu uma nota, isentando-os, ao afirmar que o suposto suicídio não tinha relações sócio-literárias com o poeta. Trotski, que mais tarde foi assassinado no México, acusou frontalmente os donos desta informação, por negligenciarem o estado emocional do poeta e o seu stress para aqueles negros dias.Neste período, o poeta foi terrivelmente atacado pelos burocratas acadêmicos que ocupavam altos postos no politburo, e dali uns dias, a liberdade artística é submetida ao obscurantismo, traindo as promessas de Marx e Lenin.)

Burliuk despertou o interesse de Maiakovski pelos livros, além de comprar-lhes, exigia-lhe que os lessem, e para completar o mecenato, dava-lhe 50 kopeks por dia, para que escrevesse e não passasse fome. Khlebnikov, um dos maiores poetas da época, detentor de bizarros casos, dentre eles, em uma de suas andanças pela Rússia, vendeu a calça e a camisa para comer, encurralado pela nudez, abrigou-se num saco e deu o dinheiro para que sua mulher guardasse. Embora anacrônico e quase insano, sonhava com uma linguagem universal. Seus poemas de ardor utopista, animaram as peças e os versos de nosso ainda infante vate. A morfologia desta influência, estava conectada num simulacro semântico, reciclando palavras e transformando-as em poemas, com sonoras seqüelas musicais, produzindo significados novos. Na ourivesaria dos seus ritmos, seu estilete cortava-as, e estes recortes, fundidos com outros, esculpiam novos blocos melopéicos. Esta metalinguagem cubo-futurista, devidamente traduzida por Augusto de Campos, expôs para o português, este raro fragmento:
Balalaica
( como um balido
abala
“ a balada do baile
de gala )

C como um balido
abala)
abala ( com
balido)
( a gala do baile )
louca a bala
laica “

Maiakoviski fascina-se por esta ousada fórmula, porém recicla-a com os rígidos padrões do seu estilo, tornando-a mais precisa de matemáticas musicalidades, podando-a na sua plasticidade de suntuosas miragens e temperando-a com pitadas de urticárias sociais, sua paciente suavidade. Ei-lo com o produto final de sua nova carpintaria:
“ No berço embocadura barcos presos
aos mamilos de madres de ferro
a orelha surda dos navios agora
rebrilham brincos de âncora.” 9

Alejandra Pizarnik, nasceu em Buenos Aires em 29 de abril de 1936. Era filha de imigrantes vindos do Leste Europeu. Estudou filosofia e literatura na Universidade de Buenos Aires. Entre 1960 e 1964, viveu em Paris, e lá trabalhou numa editora traduzindo Antonin Artaud, Henri Michaux, Aimã Cesar e Yves Bonnefoy para o idioma espanhol. Neste mesmo período estudou a história das religiões e literatura contemporânea, na Sorbone. Ao regressar para Buenos Aires, organiza-se e escreve a Condessa Sangrenta. Em 1969, ganha uma bolsa de estudos para Guggenheim e no ano de 1971 ,conquista outra para Fulbright. Em 25 de setembro de 1972, após sua internação, mergulha numa overdose de seconal e sai em…
“ PEREGRINAÇÃO
Chamei, chamei como náufraga ditosa
as ondas verdugas
que conhecem o verdadeiro nome
da morte.
Chamei o vento
Confiei-lhe o meu desejo de ser
mas um pássaro morto
voa até a desesperança
em meio a música
quando as bruxas e as flores
cortam
a mão da bruma
Um pássaro morto chamado azul
não é solidão com asas
é o silêncio da prisioneira
é a mudez de pássaros e ventos
é o mundo irritado com meu vento riso
ou os guardiões do inferno
rompendo minhas cartas
Tenho chamado, tenho chamado
Tenho chamado, até nunca…” 10

Versos, poetas e destinos, alimentam-se nas algas noturnas de suas próprias expiações, mergulham e voam, pelos oceanos invisíveis da alma humana. Pagamos um preço insólito, sem remorsos, sem remissões, pela nossa condição de pescadores do sobrenatural. Nossa palavra é bálsamo para tantos. Carregá-la aos olhos do mundo é materializar borboletas com um simples sopro primaveril, suportá-las, representa todas as pedras de Sísifo.

Ana Cristina Cesar

Nasceu em 1952 na cidade do Rio de Janeiro. Viveu sua infância entre Niterói, Copacabana e os jardins do velho Bennet. Após terminar seus estudos no Brasil, vai para Londres no final de 1968. Logo após, viaja intensamente pelo exterior, dá aulas, traduz Sylvia Plath, faz letras para músicas, publica seus poemas em jornais alternativos, e participa da antologia” 26 Poetas Hoje”, organizada por Heloísa Buarque. Pesquisou sobre literatura e cinema, mestrando-se em comunicação. Publicou Cenas de Abril e Correspondência Completa em edições independentes. No final dos anos 70 volta para Inglaterra. Dividi este tempo entre aulas, traduções e edita Luvas de Pelica. No seu retorno, vive entre São Paulo e o Rio de Janeiro, mas mantém sua residência carioca. Segue trabalhando em jornalismo, televisão e escreve A Teus Pés. No dia 29 de outubro de 1983 virou pássaro e nunca mais foi vista. Recebe visitas através dos seus livros…

“ (…) Estou vivendo de hora em hora, com muito temor.

Durante estes últimos meses amor foi fogo.
Contagem regressiva : a zerar.
Hoje é o zero,
e daqui ( Cristo em cruz de costas)
começo a amar.

Agora, imediatamente, é aqui que começa o primeiro sinal do peso do corpo que sobe. Aqui troco de mão e começo a ordenar o caos

Chão de sal grosso e ouro que se racha.
A ponto de partir, já sei que
nossos olhos sorriem na distância.”
Estou sirgando, mas
o velame foge.
Te digo: não chores não.
Aqui é mais calmo, é suave ardor
que se pode namorar à distância.
Não é teu corpo
é a possibilidade da sombra.
Que se recorta e se recobre.
Eles se desencaminham,
mas não se pode fazer por menos.
Querida, lembra nossas soluções?
nossas bandeiras levantadas?
o verão?
o recorte dos ritmos, intacto?
É para você que escrevo, é para
você.
“My life closed twice before its close”
Emily Dickinson – 01.10.83 “ 11

Ana Cristina Cesar, desde seus primeiros versos, biografa com ternura, paixão e despedida uma atribulada vida, onde os poemas embarcam fretados em naus talhadas por uma saudade de si mesma e dos seus ardentes amores. É a linguagem arrolada em sentenças líricas de cartas-testamento, confiscando o tesouro fugaz das horas que precedem a execução do rito. É a vela que arde no pináculo do seu próprio esquecimento.

Sylvia Plath, nasceu em Boston no dia 27 de outubro de 1932. No outono de 1940, publica seu primeiro poema e no verão de 1950 dá publicidade ao seu primeiro conto. Aqui começo a tessitura final desta prosa ensaiada com seus devidos e misteriosos paralelos. Existe um termo que os espiritualistas denominaram como obsessão. Esta consiste numa sedução por parte de alguém desencarnada em situações movidas por compulsão trágica, a levar a sua eleita para o mesmo desfecho, projetando-a no mesmo ponto do abismo. Ana Cristina Cesar, com exemplar e velada vocação para este vaticínio, envereda pelas vigílias de sua traduzida, freqüenta os labirintos ofertados pelos poemas, e aos poucos vai sendo abduzida pelo buraco negro que a sua mediúnica padroeira lhe reservou. Nos poetas existe uma auto-erotização pela morte que lhes punge e confunde em graus de flagelo e hipnotismo, o que muito bem mostro durante a travessia deste texto. Ana Cristina, ao contrário de Teseu, entra nestas sendas, mas esquece o novelo e não sai mais de sua lúgubre caverna. Este é o ágio que pagamos para acessar este inefável mundo das linguagens…a seguir a última moeda que Sylvia Plath pagou ao barqueiro Caronte, 5 dias antes de sua última viagem…na madrugada de 11 de janeiro de 1963.
“ AUGE

A mulher está perfeita.
Morto,
Seu corpo mostra um sorriso de satisfação,
A ilusão de uma necessidade grega
Flui pelas dobras de sua toga,
Nus, seus pés
Parecem nos dizer:
Fomos tão longe, é o fim.
Cada criança morta, uma serpente branca,
Em volta de cada
Vasilha de leite, agora vazia.
Ela abraçou
Todas em seu seio como pétalas
De uma rosa que se fecha quando o jardim
Se espessa e odores sangram
Da garganta profunda e doce de uma flor noturna.
A lua não tem nada que estar triste,
Espiando tudo de seu capuz de osso.
Ela já está acostumada a isso.
Seu lado negro avança e draga.” 12

Planejei com toda a intensidade, a dura imobilidade das horas plantadas na pedra, lacrando com cera, os mínimos espaços da luz. Moldei com as carnes do delírio, todo o monumento do meu sono, e com gasosas anáguas, habitei-me, desenhada no rosto final da minha vertigem.

O locutor da Rádio Belgrano de Buenos Aires anuncia:

Chuvas esparsas e ventos moderados para o dia de hoje,
para quem vai viajar, muito cuidado nas estradas e no mar!
Luarita aprontara o almoço, um pouco mais cedo.

A dona da casa levanta-se, almoça e pede para não ser incomodada, no bidê ao lado da cama, deixa umas instruções, fecha a porta por dentro e sai por uma janela que dá para o pátio, levando-a para um beco estreito que a conduz direto ao mar. Toc..toc…toc…e nada, Luarita assusta-se e força a porta, abrindo-a. Lê o bilhete escrito a lápis…

“ Dentes de flores, coifa de orvalho
mãos de erva, tu, amável nutriz,
prepara-me os lençóis da terra
e a colcha de musgos capinados
Vou dormir, ama de leite,
Deita-me, põe uma lâmpada na minha
cabeceira,
uma constelação qualquer;
todas são boas; inclina a luz um pouco.
Deixa-me só: ouve brotar os ramos
lá do alto do céu um pé te embala…
e um pássaro desenha teus compassos
para que esqueças…Gracias.Ah um recado:
se ele chamar novamente ao telefone
diga-lhe que não insista, que me fui.” 13

Contratei os mais exóticos cardumes para escurecerem as águas marinhas do meu futuro leito. O rosto que vesti, era de ostras, feito especialmente para a rede dos pescados que flutua na espuma da maré vazante. Não me opus a nada, enquanto dormia, desabotoei a minha nudez, ofertando-a para os curiosos olhares dos peixes.

Alfonsina Storni nasceu em 29 de maio de 1892 em Capriasca na Suiça e na cinzenta tarde de 25 de outubro de 1938, foi vista pela última vez, caminhando em direção ao mar…

“(…) Eu ouvia. Eram vozes de gente, não vozes claras, mas sim secretas, como se murmurassem alguma coisa para mim, ao passar, ou como se zumbissem aos meus ouvidos…” 14

NOTAS

1,2,3- Texto de abertura extraído livro “ Pedro Páramo” de Juan Rulfo. Altos da p. 12
inclusive (…) Senti que o povoado vivia
4- Soneto “ Mors – amor “ de Antero de Quental, escrito em 1877, dedicado a Luis de Magalhães. Antologia da Poesia Portuguesa- Volume II- Século 17 e 20 de Alexandre Pinheiro Torres, p. 1019. Editado pela Porto Lello e irmãos editores.1997.
5- Excerto do soneto “ Quase “de Mário de Sá Carneiro, p. 14 do livro” Dispersão”,
Paris, maio de 1913.
6- Fragmentos da última carta de Mario de Sá Carneiro para Fernando Pessoa, em 04 de abril de 1916. Parte do acervo de sua correspondência com Fernando Pessoa.
7- Trechos da carta de Fernando Pessoa para Mário de Sá Carneiro, em 14 de março de 1916. Está entre as várias missivas do poeta para os seus amigos e escritores, entre eles: O mágico inglês, astrólogo e ocultista Aleister Crowley, Mário Beirão, Álvaro Pinto.
8- Primeiro quarteto e último terceto do soneto” Errante “, de Florbela Espanca, p. 17 do livro” A Mensageira das Violetas”- Editado pela LPM em 1997.
9-Fragmentos poéticos e passagens biográficas pesquisadas no livro Maiakoviski- Vida e Obra-,de Fernando Peixoto, José Álvaro Editor, 1969.
10-Peregrinação, de Alejandra Pizarnik, tradução do poema” Peregrinage” dedicado à Elizabeth Azcona Cranwell, p. 16 do livro “Las Aventuras Perdidas”,1958.
11-Todas as amostragens e o poema de Ana Cristina Cesar foram consultados nos livros” Inéditos e Dispersos -Poesia/Prosa da Editora Brasiliense, 1985, com organização e apresentação de Armando Freitas Filho e na sua obra “ A teus pés” Prosa/Poesia, publicada pela autora com o seu imaginário selo “ Cantadas Literárias”, 1982.
12- O poema “Auge” de Sylvia Plath, encerra o livro Sylvia Plath POEMAS, edição Iluminuras,1991, organização e tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça. Outras consultas no livro “ Ariel”,traduzido por Cristina Macedo e Rodrigo G. Lopes, Versus Editora,2004.
13- O último poema de Alfonsina Storni, inédito em livro, serviu de réquiem inspirador para Félix Luna e Ariel Ramirez comporem o clássico “ Alfonsina del mar”, celebrizada por Plácido Domingos, Mercedes Sosa, José Carreras e outros.
14- Fragmento final extraído do livro” Pedro Páramo “de Juan Rulfo, p. 76, “Coleção Paz e Terra”, tradução de Eliane Zagury, 1997.
Trilhas sonoras para mergulhar no “Reino de Hades”: Entrada- CD –Drácula de Bram Stoker’s- música composta pelo polonês: Wojciech Kilar.CD-The Lord of the Rings-Composição ,orquestração e condução por Howard Shore. CD- Imortal Beloved- pela London Symphony Orchestra, com a regência de Sir Georg Solti, executando árias sinfônicas e óperas de Ludwig Van Beethoven (1770-1827). CD- Mission de Ennio Morricone por ele mesmo e o retorno triunfal pela sublime melodia de Georg Friedrich Haendel ( 1685-1759) Aleluia ( do Messias).Todas alternadas em incessantes sessões. ´

ÉLVIO VARGAS (1951)
Nasceu em Alegrete, Rio Grande do Sul, Brasil. Publicou dois livros de poesias, organizou vários e participou em mais de vinte antologias, inclusive em Berlim e na Sicília.
Tem várias premiações em concursos literários

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Este ensaio é parte integrante do livro “ Arca de Impurezas”, editado pela Território das Artes em dezembro de 2008. Organizadora Liana Timm.