ODE ANACREÔNTICA

A Ulina

Vou contar-te, bela Ulina,
Minha sonhada ventura,
Que não bastou ser sonhada,
Também foi de pouca dura.

Sonhei que Amor te ferira
Com seu dourado farpão;
E te guiara a meus braços,
Pela sua própria mão.

Que, os lindos olhos erguendo,
Em mim maviosa os fitavas;
E que apertando-me ao peito
De ternura suspiravas.

Então cuidei ver a terra
Toda vestir-se de flores,
E minha glória aplaudirem
Os alígeros cantores.

Cuidei que nuvem de aromas
Em torno a nós se espessava,
Como a que Jove, no Ida,
De Juno em braços, fechava.

Mas quando em teus róseos lábios
Faminto beijo imprimia,
Forte argolada na porta,
O sono me interrompia.

Antes do que esse importuno,
A morte houvera de ser,
Fora feliz pois morrera
Nos êxtases do prazer.

Costa e Silva, de nome completo José Maria da Costa e Silva (1788-1854)
Nasceu em Lisboa, Portugal. Poeta, crítico, dramaturgo, tradutor. Depois de estudos clássicos, que levou muito a sério, e que posteriormente prosseguiu com entusiasmo, entrou para o funcionalismo público, chegando a ser diretor de secretaria e escrivão da Câmara Municipal de Lisboa. Grande estudioso da literatura antiga e moderna, teve o mérito de, em Portugal, ser um dos primeiros que chamaram a atenção para os poetas ingleses e alemães, numa época em que só eram considerados modelos os autores da antigüidade. Escreveu, entre outras, as seguintes obras: O passeio, poema descritivo; Poesias, em três volumes; D. Sebastião; D. João de Castro, peças teatrais.

Published in: on setembro 19, 2009 at 12:52 am  Deixe um comentário  
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