DEVER DE CASA, texto de TePaz

Nas várias nuances entre o pode e o não pode está o deve. Exato aí, ela se achava. Primeiramente, devia respirar senão a vida lhe abandonava. Depois, aos tantos outros mais deves, obedientemente curvar-se. Entre todos os que trazia em sua pesada mala estava aquele que mamãe lhe passara nas suas primeiras lições de vida e que nunca pudera esquecer, pois fora escrito em sua carne – o de que a vaidade é dever feminino. Sua trajetória, com páginas lotadas de idas e vindas do insucesso tentando chegar a um porto seguro, forjou-lhe caráter de seguir a qualquer custo e sem buscar os motivos para tal, um simples dever. E agora que a rua lhe dizia seja bem vinda com toda ênfase, devia esperar o grande nada em companhia daquele para quem devia tudo, um homem que lhe tomava pela mão e lhe dizia vamos indo. Para ele, tal mulher com disposição de segui-lo, em detrimento do aconchego e segurança de um lar, era muito especial, uma companheira digna de estar em pedestal dourado. Não existia outra que fizesse seu olhar desviar-se futilmente. E pelas ruas iam e nelas viviam o improviso de cada dia achar o que comer e onde dormir, na cumplicidade de um particular romance, pois o amor chega a qualquer coração.
Mas a vaidade nunca lhe abandonou. Via-se linda no manequim de uma vitrine ou imaginando-se num salão de beleza qualquer. E se as águas e sabonetes estavam de mal com ela não importava, devia agir como se ali estivessem. Seu perfume preferido, rosas, encontrou finalmente naquele spray vazio retirado do lixo. O destino lhe sorria mais uma vez e ela, elegantemente num gesto fatal, lançou um suposto jato atrás da orelha, esboçando um ar de satisfação ao ver-se pronta para enfrentar mais um dia. Quantas naquela hora da manhã faziam o mesmo gesto? Quantas naquele instante enchiam o peito de ar e pensavam, vamos à luta. Sentiu-se integrada, sentiu-se parte daquela corrente de cumplicidade feminina repetindo o seu dever de casa. Os que passaram, não entendendo sua sina, ousaram chamá-la de louca. Porém ela só fazia o que mamãe mandara, o que mamãe aprendera de sua também mamãe – ser linda e cheirosa. E depois, seguir sua vida para o que viesse e desse, mesmo se o dado fosse apenas um frasco de perfume vazio.

Outubro/2010

TePaz
(Teresinha de Jesus Paz Pereira)

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