SONETO EXTRAÍDO DO LIVRO “DOM QUIXOTE DE LA MANCHA”

Da umbrosa noite no silêncio, quando
meigo sono refaz os mais viventes,
só eu vou meus martírios inclementes
aos céus e à minha Chioris numerando.

Quando o dia os seus raios vem mostrando
dentre as rosas da aurora, auriesplendentes,
com suspiros e lástimas ferventes
vou as teimosas queixas renovando.

Se doira o sol a prumo o térreo assento,
não me dissipa as trevas da agonia;
dobra-me o pranto, aumenta-me os gemidos.

Volve a noite, e eu com ela ao meu lamento.
Ai! que sorte! Implorar de noite e dia,
ao céu piedade, e à minha ingrata ouvidos.

MIGUEL DE CERVANTES (1547-1616)
Escritor espanhol, autor do “Dom Quixote de La Mancha”, livro que marca o início do romance moderno e é um dos mais sólidos pilares da literatura universal.

(Tradução dos Viscondes de Castilho e de Azevedo)

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