PASTORAL AO PIANO

Para evocar na pastoral radiosa
O sonho mais azul do teu passado,
Deixas correr, benditas, no teclado,
As tuas mãos de mística amorosa…

Na meia-luz da sala cor-de-rosa,
Tudo é perfume. E eu mesmo alucinado,
Aspiro o feno tônico e sagrado
Dessa tranquila página saudosa.

Tudo é perfume. E bíblicas, noivando,
Alígeras, inquietas, sem repouso,
Como se andassem lírios esfolhando,

As tuas lindas mãos sutis e francas,
Lembram no voo trêmulo e nervoso,
Um par febril de borboletas brancas!

MARIO DE ARTAGÃO, pseudônimo de Antônio da Costa Corrêa Leite Filho – Rio Grande, RS, Brasil (1866) – Lisboa, Portugal (1937). Professor, jornalista, teatrólogo e poeta. Como poeta deixou: As infernais (1889); Psalterio (1894); Psalterio na quermesse (1896); Música sacra (1901); No rastro das águias (1925); Rimas pagãs (1933); Feras à solta (1936); e inédito O grande exilado.