Um poeta madeirense

AINDA NÃO CONSTRUÍ O BARCO

Não construí ainda o barco negro
para atravessar o mar dos peixes azuis
quando chegar a hora.

Confesso que vai para além do adro
da minha igreja preferida
o tamanho do cais em que prevejo
partir um dia.

Irei trazer as melhores madeiras
antigas, umas velas de tecido forte
com a Cruz de Cristo pintada ao centro,
umas cordas experimentadas pelas velhas
travessias atlânticas e os mapas
de Colombo que Zarco usou antes,
para estudar todas as rotas possíveis.

Ainda não construí o barco.
Apenas sei que partirei um dia
ao encontro do outro lado do mundo
onde acabam de vez os oceanos.

Espera-me o lugar onde descansam
as almas e que os homens temem,
como já vi escrito em tantos livros.
Eu confesso que não me mete medo
o destino. Apenas sei que partirei
um dia e tenho medo da viagem.

Por isso abraça-me, meu amor,
a noite está a chegar ao telhado
da nossa casa e pode ser hoje
o dia escolhido para a partida.

José António Gonçalves (nascido e falecido no Funchal, Ilha da Madeira, Portugal, 1954-2005). Jornalista profissional, revelou-se como autor em “O Poeta Faz-se aos Dez Anos”, de Maria Alberta Menéres (1973). Colaborador literário da imprensa, rádio, televisão (o seu tele-dramático “Ora… O Mar”, conquistou, para a RTP-M, o Prémio «Açor de Bronze», no MAT-Festival Internacional de Televisão, Horta, Açores, 1988), escrevendo ainda para o cinema (documentários) e teatro. Está traduzido para algumas línguas, entre as quais o italiano e o russo e integrado em antologias nacionais e estrangeiras. Foi co-fundador e presidente da Direcção da Associação de Escritores da Madeira (AEM) e pertenceu aos quadros directivos da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Recebeu por duas vezes o Galardão de Mérito Cultural da Região Autónoma da Madeira (1989 e 1994), tendo sido promotor e organizador de diversas iniciativas. Dirigiu os suplementos literários “Página 2000” (“Jornal da Madeira”) e “Cultura” (“Notícias da Madeira”) e coordenou “O Marcador” no semanário “Areópago”. Foi agraciado, a título póstumo, com a comenda da Ordem do Infante Dom Henrique, a 10 de Junho de 2005.

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Published in: on abril 15, 2009 at 5:51 am  Deixe um comentário  
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