Um poema de Guerra Junqueiro sobre o Brasil

FOME NO CEARÁ

I

Lançai o olhar em torno;
Arde a terra abrasada
Debaixo da candente abóbada dum forno.
Já não chora sobre ela orvalho a madrugada;
Secaram-se de todo as lágrimas das fontes;
E na fulva aridez aspérrima dos montes,
Entre as cintilações narcóticas da luz,
As árvores antigas
Levantam para o ar – atléticas mendigas,
Fantasmas espectrais, os grandes braços nus.

Na deserta amplidão dos campos luminosos
Mugem sinistramente os grandes bois sequiosos.
As aves caem já, sem se suster nas asas.
E, exaurindo-lhe a força enorme que ela encerra,
O Sol aplica à Terra
Um cáustico de brasas.

O incêndio destruidor a galopar com fúria,
Como um Átila, arrasta a túnica purpúrea
Nos bosques seculares;
E, Lacoontes senis, os troncos viridentes
Torcem-se, crepitando entre as rubras serpentes
Com as caudas de fogo em convulsões nos ares.

O Sol bebeu dum trago as límpidas correntes;
E os seus leitos sem água e sem ervagens frescas,
Co’as bordas solitárias,
Têm o aspecto cruel de valas gigantescas
Onde podem caber muitos milhões de párias.
E entre todo este horror existe um povo exangue,
Filho do nosso sangue,
Um povo nosso irmão,
Que nas ânsias da fome, em contorções hediondas,
Nos estende através das súplicas das ondas
Com o último grito a descarnada mão.

E por sobre esta imensa, atroz calamidade,
Sobre a fome, o extermínio, a viuvez, a orfandade,
Sobre os filhos sem mãe e os berços sem amor,
Pairam sinistramente em bandos agoireiros
Os abutres, que são as covas e os coveiros
Dos que nem terra têm para dormir, Senhor!

E sabei – monstruoso, horrível pesadelo! –
Sabei que aí – meu Deus, confranjo-me ao dizê-lo! –
Vêem-se os mortos nus lambidos pelos cães,
E os abutres cruéis com as garras de lanças,
Rasgando, devorando os corpos das crianças
Nas entranhas das mães!

Guerra Junqueiro (1850-1923)
Nasceu em Freixo-de-Espada-à-Cinta. Poeta, lavrador, político, advogado. Tendo terminado no Liceu os preparatórios, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, por onde se formou. Foi eleito deputado em 1880 por Viana do Castelo. Ao ser proclamada a república, em 1910, foi nomeado ministro de Portugal em Berna. Aos quatorze anos escreveu Duas páginas dos quatorze anos, que são os seus mais antigos versos conhecidos, e aos dezessete as Vozes sem eco. Publicou, entre outras, as seguintes obras: A morte de D. João, poema lírico e satírico; A musa em férias, idílios e sátiras; A velhice do padre eterno; Os simples; Pátria; Oração ao pão.

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Published in: on abril 9, 2009 at 11:29 pm  Deixe um comentário  
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