Ricardo Gonçalves e Carlos Gondim, dois poetas brasileiros

O BATUQUE

Ricardo Gonçalves

Vagas constelações de pirilampos
Ponteiam de oiro a densa noite escura.
Há um trágico silêncio na espessura
Dos matagais e na amplidão dos campos.

O batuque dos negros apavora.
Anda o saci nas moitas, vagabundo,
E almas penadas, almas do outro mundo,
Passam gemendo pela noite em fora.

Só, no ranchinho de sapé coberto,
Encosto o ouvido à taipa esburacada,
E ouço um curiango* que soluça, perto…

Lambe a fogueira os últimos gravetos,
E pela noite rola, magoada,
A cantiga nostálgica dos pretos.

* Curiango: ave de coloração pardo-amarelada, também conhecido como bacurau.

Ricardo Gonçalves (1883-1916)
Nasceu em São Paulo. Poeta, advogado, jornalista, tradutor, político. Passou a infância em Ribeirão Preto, onde estudou as primeiras letras e aprendeu a língua francesa. Foi depois para São Paulo, onde trabalhou como repórter do Correio Paulistano. Participou ativamente dos movimentos operários, defendendo, na praça pública, suas idéias socialistas. Obra: Ipês (1922), editado e prefaciado por Monteiro Lobato.

………………………………………

MARIA

Carlos Gondim

No Calvário, Jesus expira. A turbamulta
Desvaira. No estertor, Cristo ainda mais padece
Ante o néscio bramir da multidão, que o insulta,
E o seu magoado olhar, raso d’água, amortece.

Cai a sombra, e o terror gera na plebe inculta,
Que, agora, o árido cerro em muda fila desce.
Trágica, a mais e mais, a sombra cresce e avulta,
Soluça em derredor uma dorida prece,

Desgrenhada, vencendo o monte, na vertigem
Do ascenso, a horrenda cruz finalmente atingia
Aquela que a Jesus gerou no ventre virgem.

Chega, tomba e desmaia… E, de repente, pelas
Alturas, o ermo céu chora a dor de Maria,
Com as lágrimas de luz de todas estrelas!

Carlos Gondim (1886-1930)
Nasceu no Estado do Ceará. O poeta Carlos Gondim morreu tragicamente assassinado e por assassinato cumpriu longa pena de encarceramento. Da categoria dos “malditos”, escreveu sonetos de grande misticismo. Obra em vias de esquecimento. Publicou: Poemas do cárcere (1923); Ânsia revel (1929).

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Published in: on abril 7, 2009 at 7:40 am  Deixe um comentário  
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