Gomes Leal, poeta de Portugal

CANTIGA DO CAMPO

Porque andas tu mal comigo,
Ó minha doce trigueira?…
Quem me dera ser o trigo
Que, andando, pisas na eira!

Quando entre as mais raparigas
Vais cantando entre as searas,
Eu choro, ao ouvir-te as cantigas
Que cantas nas noites claras!…

Os que andam na descamisa
Gabam a viola tua,
Que, às vezes, ouço na brisa
Pelos serenos da lua.

E falam com tristes vozes
Do teu amor singular
Aquela casa onde coses
Com varanda para o mar.

Por isso nada me medra,
Ando curvado e sombrio!…
Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio!

E andar contigo, ó meu pomo,
Exposto às chuvas e aos sóis…
E uma noite morrer como
Se morrem os rouxinóis!

Morrer chorando, num choro
Que mais as mágoas consola,
Levando só o tesouro
Da nossa triste viola!

Porque andas tu mal comigo,
Ó minha doce trigueira?…
Quem me dera ser o trigo
Que, andando, pisas na eira!

Gomes Leal (1848-1921)
Nasceu em Lisboa em 1848 e a sua poesia debruça-se sobre a cidade, retratando as noites boêmias e a Lisboa pretensamente moderna.

Anúncios
Published in: on abril 7, 2009 at 7:46 am  Deixe um comentário  
Tags: ,

The URI to TrackBack this entry is: https://farolante.wordpress.com/2009/04/07/gomes-leal-poeta-de-portugal/trackback/

RSS feed for comments on this post.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: